quinta-feira, 17 de abril de 2008

Itaú Corretora mensura estrago da alta dos juros nas ações de varejo

| 17.04.2008 | 08h23

Se a Selic subir 3 pontos percentuais, por exemplo, é melhor investir em renda fixa do que em várias empresas do setor

EXAME A decisão do Banco Central (BC) de voltar a elevar os juros após três anos, anunciada nesta quarta-feira, representa apenas o início de um ciclo de aumentos que está por vir nos próximos meses. Um dos setores mais afetados pelas decisões do Copom (Comitê de Política Monetário do BC) é o varejo. Afinal, a diretoria do BC eleva a Selic justamente com o objetivo de conter o consumo e, com isso, frear as pressões inflacionárias.
Ainda é incerto o tamanho e a duração do ciclo de aumento de juros. Neste momento, o mercado trabalha com um cenário de que a Selic vai subir neste ano 1,5 ponto percentual até dezembro, chegando a 12,75% - previsão do boletim Focus. Em 2009, o BC retomaria gradualmente o movimento de baixa, com os juros retornando para 11,25%. Vale lembrar, no entanto, que as previsões para os juros são muito voláteis. Em janeiro, por exemplo, quase ninguém no mercado apostava em um ciclo de altas durante 2008 e havia até quem trabalhasse com previsões de retomada da trajetória de redução. Em poucas semanas, entretanto, a expectativa de IPCA para este ano superou o centro da meta de 4,5% e obrigou o BC a agir.
Devido a essas rápidas mudanças de cenário, a Itaú Corretora simulou o impacto da alta dos juros a partir de três cenários: elevação da Selic em 1, 2, ou 3 pontos percentuais.

No caso da B2W, por exemplo, a rentabilidade do investimento seria reduzida a menos de um terço caso os juros chegassem a 13,25% ao ano. As ações da empresa fazem parte da carteira sugerida para abril por seis corretoras (Ágora, Fator, SLW, Socopa, Souza Barros e Unibanco), além da gestora de recursos Paraty Investimentos.
Boa parte desse impacto, no entanto, já está precificado nas ações. Num período de três meses encerrados no dia 15 de abril, o Ibovespa acumulou uma alta de 4,5%. Já setores bastante ligados ao mercado interno – os mais afetados pela alta dos juros – amargaram baixas consideráveis. O comércio varejista perdeu nada menos que 18%. Já as lojas de departamentos tiveram queda de 13%. Ações de administradoras de shopping centers caíram em média 12%.
Apesar de estar entre os mais afetados, o varejo não é único a sofrer com a Selic m ais alta. Analistas apontam o setor de construção como outro que padecerá a cada piora de expectativa em relação à inflação. Nos últimos três meses, as construtoras da Bovespa perderam 10% do valor de mercado.
A própria Bovespa Holding foi bastante afetada. Como juros maiores estimulam a migração de recurso do mercado acionário para a renda fixa, as ações da bolsa despencaram mais de 20%. O resultado é particularmente negativo se for considerado que a Bovespa anunciou no período a fusão com a BM&F. A união das bolsas deve levar a economia de despesas de até 25% em 2010. Portanto, as ações deveriam ter respondido ao negócio com valorização, mas não foi o que aconteceu.
Inflação no mundo
O Brasil não é um caso isolado de elevação da inflação. Da China aos Estados Unidos, a alta dos preços de energia e das commodities tem obrigado bancos centrais a tomar posturas cautelosas para manter a inflação sob controle. Na China, a alta dos preços já chega a 8,3% ao ano – quase o dobro do centro da meta brasileira.
Na semana passada, o estrategista de mercados emergentes do banco Merrill Lynch, Michael Hartnett, foi categórico ao afirmar que a inflação já é uma ameaça maior para os países emergentes do que a provável recessão nos Estados Unidos. Enquanto a economia americana – considerada até então a principal fonte de preocupação do mercado desde o início da crise do subprime - só afundará os emergentes se provocar o fim do boom das commodities, a inflação já está causando altas de juros e retração do consumo em vários países.
O economista da Merrill Lynch elevou sua previsão da inflação em emergentes de 5,3% para 6,7% neste ano. Se por um lado a onda de aumentos de juros deverá conter essa escalada dos preços, por outro haverá forte impacto no mercado de capitais. Bolsas como de Xangai e Hong Kong acumulam perdas de mais de 30% desde novembro devido, principalmente, à expectativa de avanço dos preços.
Outro efeito colateral da alta dos juros no Brasil seria uma desvalorização ainda maior do dólar. Com a crescente diferença entre as taxas brasileiras e as praticadas nos EUA e Europa, mais capital especulativo pode chegar ao país, forçando a moeda americana para baixo. A valorização ainda maior do real ajudaria o país a controlar a inflação, mas prejudicaria principalmente os exportadores de bens manufaturados. Com o dólar cotado no atual patamar de 1,70 real, esses empresários já têm se queixado da redução das margens de lucro nas vendas ao exterior. Juros maiores só tendem a piorar esse cenário para os exportadores.

Nenhum comentário: