A crise americana abalou o mercado de ações e trouxe de volta a incerteza. E isso muda tudo para quem se acostumou, ao longo dos últimos anos, a ganhar sempre na bolsa
Por Eduardo Salgado
EXAME Para boa parte dos investidores brasileiros, as primeiras semanas de 2008 reservaram emoções inéditas. Acostumados com uma bolsa de valores que subiu quase 500% nos últimos cinco anos, muitos aplicadores aprenderam a olhar o mercado financeiro como uma fonte de dinheiro fácil. Então veio janeiro e a turbulência provocada pela crise americana mostrou que -- bingo! -- o horizonte nem sempre é cor-de-rosa. A Bovespa fechou o mês passado com perda de 7%, o pior mês desde maio de 2006, e, para completar, as previsões são de mais altos e baixos pelo menos até o fim do primeiro trimestre. Para a maioria dos 300 000 investidores que estrearam na Bovespa desde 2003 chegou a hora do batismo de fogo. "A bolsa não é indicada para o torcedor, aquele sujeito que faz a aplicação e fica torcendo para a ação não cair", diz Ilan Ryfer, gestor de alocação de recursos do private do Credit Suisse Hedging-Griffo. Um dos principais ensinamentos do investidor americano Warren Buffett, um dos três homens mais ricos do mundo, é justamente colocar o dinheiro em empresas, não em promessas de lucro rápido. "Quando o prêmio é muito alto em comparação com a aposta, deixa de ser investimento e vira um cassino", ensina Buffett, celebri zado no mundo das finanças por um incrível bom senso que se transformou em fortuna.
Em meio a esse mundo de incertezas, qual é o melhor caminho? Em uma frase, a recomendação é sair do piloto automático. Os investidores que analisam seus planos de aplicação uma vez por ano vão precisar mudar. O ano de 2008 é um ano para pilotar. Durante os próximos meses, será necessário acompanhar de perto o noticiário e o desempenho das aplicações. Não se trata, obviamente, de um controle diário -- o que, por sinal, deve ser evitado, sobretudo pelos mais ansiosos. O importante é se manter ligado, pois o mais provável é que ajustes de rota se façam necessários ao longo do caminho. A primeira diferença em relação a 2007 é que o ponto de partida é completamente outro. Por isso, não é má idéia diminuir o montante aplicado em papéis na bolsa. Quem for mais avesso ao risco deve considerar a possibilidade de buscar a ajuda dos gestores de fundos de ações, em vez de tentar escolher os papéis nos quais colocar o dinheiro.
| Um ano para o investidor ficar de olho |
| 2008 começa com incertezas. Confira abaixo alguns eventos que devem mexer com a economia e os mercados |
| FEVEREIRO |
| Anúncio do IPCA de janeiro, que, se vier acima das expectativas (entre 0,5% e 0,7%), pode influenciar o Copom a aumentar os juros e provocar queda na Bovespa Índice de preços e indicadores de atividade nos Estados Unidos podem dar dimensão do tamanho da crise americana |
| MARÇO |
| Início da colheita da safra recorde de grãos, estimada em 136 milhões de toneladas No dia 5, o mercado financeiro estará de olho na reunião do Copom |
| ABRIL |
| Prévia do PIB americano do primeiro trimestre de 2008. Se o número vier abaixo do esperado, as bolsas podem despencar no mundo todo |
| MAIO |
| Novos números de emprego e atividade econômica nos Estados Unidos despertam a atenção do mercado |
| JUNHO |
| Época de furacões no Caribe e na América do Norte, que costumam causar impactos na produção de petróleo nas regiões Anúncio do PIB do primeiro trimestre nos Estados Unidos |
| JULHO |
| O Japão sedia a reunião de cúpula do G8, na qual o principal tema será o meio ambiente |
| AGOSTO |
| Começam os Jogos Olímpicos de Pequim, em que 10 500 atletas irão competir em 28 modalidades esportivas |
| OUTUBRO |
| Divulgação do relatório do Fundo Monetário Internacional sobre economia mundial |
| NOVEMBRO |
| Os americanos terão de escolher o sucessor de George W. Bush na Casa Branca |
| DEZEMBRO |
| Conferência Geral da Organização Mundial do Comércio ocorre em Genebra |
O PADRÃO DO MERCADO DE CAPITAIS TAMBÉM É OUTRO. Até bem recentemente, as aberturas de capital -- conhecidas pela sigla em inglês IPO -- eram uma seqüência de casos de sucesso. A previsão para este ano é distinta. O número de aberturas deve cair para a metade e os preços provavelmente sofrerão ajuste. Caso esse cenário se confirme, aqueles aplicadores com queda pela especulação -- os que reservam ações e vendem tudo já no dia da abertura -- tomarão muito mais riscos. É verdade que os altos e baixos das últimas semanas deram um novo apelo a uma série de ações. Se as previsões de mais turbulências ao longo do ano se materializarem, boas oportunidades vão certamente surgir. Ainda assim, o conselho dos especialistas ouvidos por EXAME é para que se controlem certos impulsos. "Enquanto a turbulência continuar, o apetite do investidor deve ser comedido", diz Mário Felisberto, diretor de investimentos do HSBC. Ou seja, por enquanto é preferível deixar de ganhar do que arriscar perder.
A bolsa, é bom que se diga, ainda está em primeiro lugar na lista dos investimentos mais rentáveis dos últimos 12 meses. É certo que o Índice Bovespa caiu neste começo de ano, mas sua valorização de janeiro a dezembro do ano passado foi de 44%. E a previsão é que a bolsa feche 2008 em 75 000 -- saindo do patamar de 60 000 do começo de fevereiro. Não é por acaso que o jornal britânico Financial Times, espécie de bíblia do mundo financeiro internacional, publicou recentemente uma reportagem em que apontava o Brasil como um dos mercados emergentes mais atraentes para este ano. O que os estrangeiros estão vendo é um país com um mercado interno em expansão e no qual o investimento externo direcionado ao setor produtivo não pára de fluir. Enquanto as bolsas oscilam, a economia real dá sinais de fortaleza. Em épocas passadas -- e elas não estão tão distantes assim --, o país ia do céu ao inferno ao primeiro sinal de crise externa. Nesta crise -- que para os mais pessimistas pode jogar a economia americana na lona por um período razoavelmente longo e que para os sensatos não pode ser ignorada --, os efeitos fora da bolsa ainda foram pouco sentidos no Brasil.
Nas últimas duas semanas, uma equipe de oito jornalistas de EXAME falou com mais de 100 economistas, analistas e empresários no Brasil e no exterior com a missão de traçar um cenário mais claro do atual momento da economia e das finanças. Entre todos eles há, obviamente, muita divergência de opiniões, mas a maioria não perdeu a oportunidade de ressaltar o novo status do país. "O Brasil deve crescer menos do que no ano passado, porém não há risco de crise séria", diz Nouriel Roubini, professor de economia da Universidade de Nova York e assessor do presidente Bill Clinton na Casa Branca. "No caso do Brasil, não há nada que preocupe", afirma Edward Prescott, o ganhador do Prêmio Nobel de economia de 2004. São opiniões em linha com outro celebrado economista ouvido por EXAME, o britânico Martin Wolf, colunista do Financial Times: "Os brasileiros podem relaxar".
A prova de que nem tudo é festa, no entanto, veio na semana que antecedeu o Carnaval. Preocupado com a alta dos preços, o Comitê de Política Monetária (Copom), formado pelo presidente e pelos diretores do Banco Central, deixou claro que não irá vacilar em aumentar a taxa básica de juro da economia, a Selic, caso a inflação continue subindo. O anúncio não chega a ser uma surpresa. Ao longo dos últimos oito anos e meio, desde que foi criado o sistema de metas de inflação, o país se acostumou com a luta constante do Banco Central contra a alta de preços. Em grande medida, foram conquistas como essa que colocaram o Brasil no patamar atual. E que permitem olhar, a despeito da crise, o futuro com otimismo. As turbulências devem continuar, as emoções estão garantidas, mas, somando todos os prós e os contras, 2008 pode terminar melhor do que começou.
| As regras para 2008 |
| Os conselhos dos especialistas para ganhar dinheiro num ano mais turbulento |
| 1 - SEJA MAIS CAUTELOSO |
| A recomendação dos especialistas é que o investidor corra menos risco. “Quando há neblina na estrada, o melhor é andar devagar”, diz Alexandre Póvoa, sócio da gestora de recursos Modal. Isso vale para fundos multimercados agressivos, investimentos em ações e contratos da BM&F. |
| 2 - NÃO FAÇA MUDANÇAS BRUSCAS NO PORTFÓLIO |
| Quem decidiu que irá colocar 35% de seu patrimônio em fundos DI, por exemplo, pode alterar esse índice em, no máximo, 10%. “O que o investidor não pode fazer é mudar seu perfil em razão de uma conjuntura de mercado”, diz Rodrigo Lopes, diretor da gestora Banif Nitor. |
| 3 - APROVEITE AS OPORTUNIDADES DA RENDA FIXA |
| Por causa da crise, muitas empresas devem emitir títulos de dívida pagando juros mais atraentes do que os de 2007. Para o pequeno investidor, há fundos que aplicam nesse segmento. |
| 4 - NÃO MONITORE A BOLSA TODOS OS DIAS |
| É obrigação do investidor acompanhar o retorno de suas aplicações. Monitorar o mercado todos os dias, porém, é má idéia — especialmente em momentos de turbulência.“Esse é o primeiro passo para fazer algo impulsivo, o que, num mercado volátil, pode gerar grandes perdas”, diz Mário Felisberto, diretor de investimentos do HSBC. |
| 5 - INVISTA EM AÇÕES DE PERFIS DIFERENTES |
| Nem sempre os altos e baixos das ações têm explicações lógicas. A desconfiança dos investidores pode fazer o valor de mercado de uma empresa desabar. Para se proteger disso, o recomendado é diversificar a carteira de ações.“Se for aplicar num fundo, escolha um que tenha mais de 30 papéis”, diz Aquiles Mosca, estrategista do ABN Amro. |
| 6 - IPOs: NÃO COMPRE PARA VENDER NO MESMO DIA |
| Embolsar ganhos rápidos aplicando por um único dia nas ações de empresas que abrem o capital promete ser cada vez mais difícil. No passado, as fortes altas registradas no primeiro dia de pregão de muitas companhias foram motivadas pelo apetite de investidores estrangeiros. Agora, o interesse deles está menor — assim como a valorização das ações. |
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