28/5/2008 - Volatilidade aumenta em carteiras de uma ação só - Valor
As últimas semanas mostraram como é emocionante a vida dos cotistas que aplicam em fundos de uma só ação. A carteira com papéis da Nossa Caixa disparou 35% na última semana, com a possibilidade de incorporação pelo Banco do Brasil. Os fundos Petrobras também subiram com força, 3,64% na semana passada. Mas, naquele mesmo período, os fundos da Vale recuaram 5,22%, em média.
A semana foi significativa para mostrar como o risco de fundos de um único papel é muito mais elevado do que o daqueles mais diversificados, com uma cesta de diferentes ações do mercado, observa Marcelo D'Agosto, diretor do site financeiro Fortuna. "Sempre um deles vai render mais, mas todos têm mais risco e o investidor que tentar acertar qual o melhor a cada momento pode perder." Os fundos de ações caíram 0,88% na semana passada para 1,81% do Índice Bovespa no mesmo período.
Atualmente, mais de R$ 20 bilhões de recursos próprios dos investidores estão aplicadores em fundos de um só papel (excluídos, portanto, os fundos com dinheiro do FGTS). Essa quantia é quase um quarto dos R$ 89,8 bilhões em outros fundos de ações, segundo os dados do Fortuna. "Esses fundos de uma ação só tendem a ter uma volatilidade maior e são menos previsíveis do que uma carteira diversificada", diz D'Agosto. O resultado passado dessas carteiras não diz muito sobre lucros ou perdas futuras, mas revela a oscilação que pode ser esperada.
No caso do Índice Bovespa, a perda esperada para o período de um mês, com intervalo de confiança de 95%, é de 11,37% - essa medida é chamada de "Value at Risk" ou apenas VaR. Ou seja, é esperado que um fundo Ibovespa passivo perca até essa marca em 30 dias, explica D'Agosto. Já para os fundos PIBB, mais diversificados, que aplicam segundo o IBrX-50, o VaR é de 10,90%. Isto é, o PIBB é menos volátil que o Ibovespa. No caso dos fundos de apenas um papel, porém, essa medida é muito maior. Segundo o Fortuna, a medida é de cerca de 14% no caso dos fundos Vale e acima de 14% para os Petrobras. Já o fundo exclusivo de ações da Nossa Caixa, o VaR é de 38,17%, segundo dados do site financeiro. Ou seja, seria esperada perda de quase 40% em um mês.
No Banco do Brasil (BB), os fundos de Petrobras e Vale reúnem R$ 4,8 bilhões, quase metade do patrimônio de R$ 10,8 bilhões aplicados em fundos de ações distribuídos no varejo. Apesar de a teoria moderna de investimentos atrelar a eficiência de uma carteira à diversificação, as ações da petrolífera e da mineradora têm fundamentos para atrair a atenção dos investidores, diz o gerente executivo de Fundos de Ações da BB DTVM, Jorge Marino Ricca. "Primeiro veio o 'investment grade' (grau de investimento) no fim de abril, que beneficiou todas as ações", afirma. "E, no caso específico da Petrobras, as descobertas anunciadas, o esforço para aumentar a produção e reduzir custos podem se traduzir em resultados futuros melhores."
Apesar de acumular alta de 17% no mês, as ações ordinárias (ON, com voto) da Petrobras caíram 4,05% só ontem. Vale ON, por sua vez, sobe 12,40% no ano e recua 0,84% no mês. Para Ricca, a volatilidade recente é fruto de um movimento de realização de lucros natural na Bovespa, depois de as ações, junto com as siderúrgicas, levarem o Ibovespa à casa dos 74 mil pontos. Ele sugere, porém, que o investidor divida, sim, os seus recursos em outras carteiras, em fundos que acompanham o índice ou o IBrX-50 e em portfólios ativos, sempre sob a ótica do longo prazo.
Como a liquidez da própria Bovespa é concentrada em Petrobras e Vale (35%, considerando-se as ações PN e ON), ao investir nas carteiras que reúnem esses papéis, o investidor está garantindo o trânsito fácil na entrada ou na saída, diz o vice-presidente de Gestão de Ativos de Terceiros da Caixa, Bolivar Tarragó. "Ao mesmo tempo, pode ser ruim porque nos momentos em que o estrangeiro quer sair do mercado, ele vende as mais líquidas e, por isso, a volatilidade alta."

