quinta-feira, 29 de maio de 2008

Um país inebriado pelo sucesso

5/28/2008 - Um país inebriado pelo sucesso - Valor

Nas últimas semanas, a grande imprensa estrangeira se rendeu ao momento positivo vivido pelo Brasil. A severa revista inglesa "The Economist" qualificou o país de "superpotência econômica", prestes também a se transformar em grande produtor e exportador de petróleo. Já o geralmente incrédulo diário americano "The Wall Street Journal" afirmou que, finalmente, a economia brasileira colocou um "B", de Brasil, na sigla Bric, que designa as potências emergentes.

O "The New York Times" escreveu recentemente que os brasileiros vivem momento inédito de prosperidade e que o país está "descolando" da recessão americana. Usando um tom mais prudente, o rigoroso "Financial Times" saudou o momento brasileiro, mas advertiu que "grau de investimento", a classificação de normalidade dada recentemente ao Brasil pela Standard & Poor's, "não é um distintivo de desenvolvimento".

Há duas semanas, um repórter da revista americana "US News & World Report" fez um périplo pelo país e ficou impressionado com o desenvolvimento do agronegócio. Ao passar por Brasília, quis saber por que, apesar disso, os brasileiros, principalmente os citadinos e os que vivem no litoral, não dão a menor bola para esse fato. Atônito, ele dizia que o Brasil está sendo visto lá fora como um produtor abundante em duas áreas onde há escassez mundo afora: energia renovável (etanol e hidrelétrica) e não-renovável (petróleo) e alimentos.

Dentro do país, brasileiros questionam por que a mídia nacional não enxerga este momento do país com os mesmos olhos dos estrangeiros. Uma possível explicação estaria no fato de que a imprensa brasileira está calejada. A sucessão de crises e frustrações durante décadas teria forjado na opinião pública o sentimento de que o Brasil jamais dará certo. Qualquer percepção fora desse contexto seria ingênua e precipitada.

Outra razão para o suposto pessimismo estaria na natureza do atual debate político. Reconhecer o sucesso do país seria dar um salvo-conduto ao governo Lula, uma administração manchada por escândalos de corrupção, como o "mensalão". Ninguém é, de fato, obrigado a aprovar a gestão do atual governo por que os indicadores econômicos e sociais melhoraram. Por outro lado, não há como negar que o Brasil vive momento especial, talvez, histórico, e ele é obra, ainda inacabada, de cinco governos civis e não apenas da gestão Lula.

Em 23 anos, cinco presidentes deram contribuições à modernização da economia. José Sarney (1985-1990) apostou na democracia e iniciou o debate das mudanças econômicas - foi em sua gestão que se começou a discutir privatização. Fernando Collor (1990-1992) abriu a economia, vendeu as primeiras estatais e lançou agenda de reformas. Itamar Franco (1992-1994) investiu na democracia, bancou o Plano Real e, mesmo constrangido, deu seguimento às privatizações - a CSN foi leiloada em sua gestão.

Em oito anos de governo, Fernando Henrique Cardoso quebrou monopólios estatais, acelerou a desestatização e fez a primeira reforma da Previdência. Em 1999, depois de uma sucessão de equívocos que mantiveram o real artificialmente valorizado e que quase quebraram o país, aperfeiçoou a política de estabilização, com a adoção do tripé metas para inflação-câmbio flutuante-superávit primário nas contas públicas.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu em 2003 e redobrou a aposta na política econômica herdada de FHC. Avançou nas políticas sociais, mas interrompeu as privatizações e o processo de reformas estruturais (desistiu, inclusive, de se empenhar na regulamentação da reforma da Previdência do setor público que aprovou no Congresso). Beneficiário de uma conjuntura internacional favorável, faturou o controle da inflação, a auto-suficiência do petróleo, o grau de investimento, a redução da pobreza etc.

Tendo sobrevivido a uma crise política aguda em 2005, que poderia ter lhe custado o mandato, Lula desistiu do Congresso. Desde o primeiro mandato, o governo não tem uma agenda legislativa. O Congresso está paralisado, como se o país já tivesse resolvido todos os problemas. A situação é peculiar e anômala: o presidente é o mais popular em décadas, tem maioria congressual, o apoio de 14 partidos, mas se recusa a propor mudanças relevantes. Talvez esteja aí, no absurdo dessa situação, o descompasso entre a percepção estrangeira e a nacional. Um forasteiro jamais compreenderia o significado da inércia.

O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), embora bem-intencionado, é limitado - o governo, há quatro anos, reajusta sem parar, e sempre acima da inflação e do PIB, os gastos com salários do funcionalismo; enquanto isso, os investimentos em infra-estrutura mantêm-se num patamar modesto, inferior a 1% do produto (sozinha, a Petrobras está investindo em 2008 cinco vezes mais do que a União).

O inegável sucesso do momento inebria o presidente Lula. Na prática, embora o país continue no rumo certo, ao contrário de vizinhos como Argentina e Venezuela, a inação diminuirá o potencial de crescimento econômico a longo prazo. Na verdade, já é possível ver as limitações no curto prazo - está ficando cada vez mais claro que o Brasil não consegue crescer 5% por dois anos consecutivos, sem pressionar a inflação.

Guido Mantega, o anti-herói

Se Lula tenta ser o protagonista da promissora fase brasileira, o Ministério da Fazenda trata de brigar com seus fundamentos, o que também só é possível num período como o atual. A Fazenda segue agindo feito barata tonta, vendo crise onde não há, produzindo idéias exóticas "às pamparras", em vez de se ocupar do que pode, aí sim, provocar crise a médio ou longo prazo: o crescimento acelerado e injustificável dos gastos públicos e a contínua elevação da carga tributária.

Enquanto isso, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, segue pelejando para executar as obras do PAC.

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