terça-feira, 25 de março de 2008

Emoção garantida


A crise americana abalou o mercado de ações e trouxe de volta a incerteza. E isso muda tudo para quem se acostumou, ao longo dos últimos anos, a ganhar sempre na bolsa

Por Eduardo Salgado

EXAME Para boa parte dos investidores brasileiros, as primeiras semanas de 2008 reservaram emoções inéditas. Acostumados com uma bolsa de valores que subiu quase 500% nos últimos cinco anos, muitos aplicadores aprenderam a olhar o mercado financeiro como uma fonte de dinheiro fácil. Então veio janeiro e a turbulência provocada pela crise americana mostrou que -- bingo! -- o horizonte nem sempre é cor-de-rosa. A Bovespa fechou o mês passado com perda de 7%, o pior mês desde maio de 2006, e, para completar, as previsões são de mais altos e baixos pelo menos até o fim do primeiro trimestre. Para a maioria dos 300 000 investidores que estrearam na Bovespa desde 2003 chegou a hora do batismo de fogo. "A bolsa não é indicada para o torcedor, aquele sujeito que faz a aplicação e fica torcendo para a ação não cair", diz Ilan Ryfer, gestor de alocação de recursos do private do Credit Suisse Hedging-Griffo. Um dos principais ensinamentos do investidor americano Warren Buffett, um dos três homens mais ricos do mundo, é justamente colocar o dinheiro em empresas, não em promessas de lucro rápido. "Quando o prêmio é muito alto em comparação com a aposta, deixa de ser investimento e vira um cassino", ensina Buffett, celebri zado no mundo das finanças por um incrível bom senso que se transformou em fortuna.

Em meio a esse mundo de incertezas, qual é o melhor caminho? Em uma frase, a recomendação é sair do piloto automático. Os investidores que analisam seus planos de aplicação uma vez por ano vão precisar mudar. O ano de 2008 é um ano para pilotar. Durante os próximos meses, será necessário acompanhar de perto o noticiário e o desempenho das aplicações. Não se trata, obviamente, de um controle diário -- o que, por sinal, deve ser evitado, sobretudo pelos mais ansiosos. O importante é se manter ligado, pois o mais provável é que ajustes de rota se façam necessários ao longo do caminho. A primeira diferença em relação a 2007 é que o ponto de partida é completamente outro. Por isso, não é má idéia diminuir o montante aplicado em papéis na bolsa. Quem for mais avesso ao risco deve considerar a possibilidade de buscar a ajuda dos gestores de fundos de ações, em vez de tentar escolher os papéis nos quais colocar o dinheiro.

Um ano para o investidor ficar de olho
2008 começa com incertezas. Confira abaixo alguns eventos que devem mexer com a economia e os mercados
FEVEREIRO
Anúncio do IPCA de janeiro, que, se vier acima das expectativas (entre 0,5% e 0,7%), pode influenciar o Copom a aumentar os juros e provocar queda na Bovespa

Índice de preços e indicadores de atividade nos Estados Unidos podem dar dimensão do tamanho da crise americana
MARÇO
Início da colheita da safra recorde de grãos, estimada em 136 milhões de toneladas

No dia 5, o mercado financeiro estará de olho na reunião do Copom
ABRIL
Prévia do PIB americano do primeiro trimestre de 2008. Se o número vier abaixo do esperado, as bolsas podem despencar no mundo todo
MAIO
Novos números de emprego e atividade econômica nos Estados Unidos despertam a atenção do mercado
JUNHO
Época de furacões no Caribe e na América do Norte, que costumam causar impactos na produção de petróleo nas regiões

Anúncio do PIB do primeiro trimestre nos Estados Unidos
JULHO
O Japão sedia a reunião de cúpula do G8, na qual o principal tema será o meio ambiente
AGOSTO
Começam os Jogos Olímpicos de Pequim, em que 10 500 atletas irão competir em 28 modalidades esportivas
OUTUBRO
Divulgação do relatório do Fundo Monetário Internacional sobre economia mundial
NOVEMBRO
Os americanos terão de escolher o sucessor de George W. Bush na Casa Branca
DEZEMBRO
Conferência Geral da Organização Mundial do Comércio ocorre em Genebra


O PADRÃO DO MERCADO DE CAPITAIS TAMBÉM É OUTRO. Até bem recentemente, as aberturas de capital -- conhecidas pela sigla em inglês IPO -- eram uma seqüência de casos de sucesso. A previsão para este ano é distinta. O número de aberturas deve cair para a metade e os preços provavelmente sofrerão ajuste. Caso esse cenário se confirme, aqueles aplicadores com queda pela especulação -- os que reservam ações e vendem tudo já no dia da abertura -- tomarão muito mais riscos. É verdade que os altos e baixos das últimas semanas deram um novo apelo a uma série de ações. Se as previsões de mais turbulências ao longo do ano se materializarem, boas oportunidades vão certamente surgir. Ainda assim, o conselho dos especialistas ouvidos por EXAME é para que se controlem certos impulsos. "Enquanto a turbulência continuar, o apetite do investidor deve ser comedido", diz Mário Felisberto, diretor de investimentos do HSBC. Ou seja, por enquanto é preferível deixar de ganhar do que arriscar perder.

A bolsa, é bom que se diga, ainda está em primeiro lugar na lista dos investimentos mais rentáveis dos últimos 12 meses. É certo que o Índice Bovespa caiu neste começo de ano, mas sua valorização de janeiro a dezembro do ano passado foi de 44%. E a previsão é que a bolsa feche 2008 em 75 000 -- saindo do patamar de 60 000 do começo de fevereiro. Não é por acaso que o jornal britânico Financial Times, espécie de bíblia do mundo financeiro internacional, publicou recentemente uma reportagem em que apontava o Brasil como um dos mercados emergentes mais atraentes para este ano. O que os estrangeiros estão vendo é um país com um mercado interno em expansão e no qual o investimento externo direcionado ao setor produtivo não pára de fluir. Enquanto as bolsas oscilam, a economia real dá sinais de fortaleza. Em épocas passadas -- e elas não estão tão distantes assim --, o país ia do céu ao inferno ao primeiro sinal de crise externa. Nesta crise -- que para os mais pessimistas pode jogar a economia americana na lona por um período razoavelmente longo e que para os sensatos não pode ser ignorada --, os efeitos fora da bolsa ainda foram pouco sentidos no Brasil.

Nas últimas duas semanas, uma equipe de oito jornalistas de EXAME falou com mais de 100 economistas, analistas e empresários no Brasil e no exterior com a missão de traçar um cenário mais claro do atual momento da economia e das finanças. Entre todos eles há, obviamente, muita divergência de opiniões, mas a maioria não perdeu a oportunidade de ressaltar o novo status do país. "O Brasil deve crescer menos do que no ano passado, porém não há risco de crise séria", diz Nouriel Roubini, professor de economia da Universidade de Nova York e assessor do presidente Bill Clinton na Casa Branca. "No caso do Brasil, não há nada que preocupe", afirma Edward Prescott, o ganhador do Prêmio Nobel de economia de 2004. São opiniões em linha com outro celebrado economista ouvido por EXAME, o britânico Martin Wolf, colunista do Financial Times: "Os brasileiros podem relaxar".

A prova de que nem tudo é festa, no entanto, veio na semana que antecedeu o Carnaval. Preocupado com a alta dos preços, o Comitê de Política Monetária (Copom), formado pelo presidente e pelos diretores do Banco Central, deixou claro que não irá vacilar em aumentar a taxa básica de juro da economia, a Selic, caso a inflação continue subindo. O anúncio não chega a ser uma surpresa. Ao longo dos últimos oito anos e meio, desde que foi criado o sistema de metas de inflação, o país se acostumou com a luta constante do Banco Central contra a alta de preços. Em grande medida, foram conquistas como essa que colocaram o Brasil no patamar atual. E que permitem olhar, a despeito da crise, o futuro com otimismo. As turbulências devem continuar, as emoções estão garantidas, mas, somando todos os prós e os contras, 2008 pode terminar melhor do que começou.

As regras para 2008
Os conselhos dos especialistas para ganhar dinheiro num ano mais turbulento
1 - SEJA MAIS CAUTELOSO
A recomendação dos especialistas é que o investidor corra menos risco. “Quando há neblina na estrada, o melhor é andar devagar”, diz Alexandre Póvoa, sócio da gestora de recursos Modal. Isso vale para fundos multimercados agressivos, investimentos em ações e contratos da BM&F.
2 - NÃO FAÇA MUDANÇAS BRUSCAS NO PORTFÓLIO
Quem decidiu que irá colocar 35% de seu patrimônio em fundos DI, por exemplo, pode alterar esse índice em, no máximo, 10%. “O que o investidor não pode fazer é mudar seu perfil em razão de uma conjuntura de mercado”, diz Rodrigo Lopes, diretor da gestora Banif Nitor.
3 - APROVEITE AS OPORTUNIDADES DA RENDA FIXA
Por causa da crise, muitas empresas devem emitir títulos de dívida pagando juros mais atraentes do que os de 2007. Para o pequeno investidor, há fundos que aplicam nesse segmento.
4 - NÃO MONITORE A BOLSA TODOS OS DIAS
É obrigação do investidor acompanhar o retorno de suas aplicações. Monitorar o mercado todos os dias, porém, é má idéia — especialmente em momentos de turbulência.“Esse é o primeiro passo para fazer algo impulsivo, o que, num mercado volátil, pode gerar grandes perdas”, diz Mário Felisberto, diretor de investimentos do HSBC.
5 - INVISTA EM AÇÕES DE PERFIS DIFERENTES
Nem sempre os altos e baixos das ações têm explicações lógicas. A desconfiança dos investidores pode fazer o valor de mercado de uma empresa desabar. Para se proteger disso, o recomendado é diversificar a carteira de ações.“Se for aplicar num fundo, escolha um que tenha mais de 30 papéis”, diz Aquiles Mosca, estrategista do ABN Amro.
6 - IPOs: NÃO COMPRE PARA VENDER NO MESMO DIA
Embolsar ganhos rápidos aplicando por um único dia nas ações de empresas que abrem o capital promete ser cada vez mais difícil. No passado, as fortes altas registradas no primeiro dia de pregão de muitas companhias foram motivadas pelo apetite de investidores estrangeiros. Agora, o interesse deles está menor — assim como a valorização das ações.

Emoção garantida

A crise americana abalou o mercado de ações e trouxe de volta a incerteza. E isso muda tudo para quem se acostumou, ao longo dos últimos anos, a ganhar sempre na bolsa


Por Eduardo Salgado

EXAME Para boa parte dos investidores brasileiros, as primeiras semanas de 2008 reservaram emoções inéditas. Acostumados com uma bolsa de valores que subiu quase 500% nos últimos cinco anos, muitos aplicadores aprenderam a olhar o mercado financeiro como uma fonte de dinheiro fácil. Então veio janeiro e a turbulência provocada pela crise americana mostrou que -- bingo! -- o horizonte nem sempre é cor-de-rosa. A Bovespa fechou o mês passado com perda de 7%, o pior mês desde maio de 2006, e, para completar, as previsões são de mais altos e baixos pelo menos até o fim do primeiro trimestre. Para a maioria dos 300 000 investidores que estrearam na Bovespa desde 2003 chegou a hora do batismo de fogo. "A bolsa não é indicada para o torcedor, aquele sujeito que faz a aplicação e fica torcendo para a ação não cair", diz Ilan Ryfer, gestor de alocação de recursos do private do Credit Suisse Hedging-Griffo. Um dos principais ensinamentos do investidor americano Warren Buffett, um dos três homens mais ricos do mundo, é justamente colocar o dinheiro em empresas, não em promessas de lucro rápido. "Quando o prêmio é muito alto em comparação com a aposta, deixa de ser investimento e vira um cassino", ensina Buffett, celebri zado no mundo das finanças por um incrível bom senso que se transformou em fortuna.

Em meio a esse mundo de incertezas, qual é o melhor caminho? Em uma frase, a recomendação é sair do piloto automático. Os investidores que analisam seus planos de aplicação uma vez por ano vão precisar mudar. O ano de 2008 é um ano para pilotar. Durante os próximos meses, será necessário acompanhar de perto o noticiário e o desempenho das aplicações. Não se trata, obviamente, de um controle diário -- o que, por sinal, deve ser evitado, sobretudo pelos mais ansiosos. O importante é se manter ligado, pois o mais provável é que ajustes de rota se façam necessários ao longo do caminho. A primeira diferença em relação a 2007 é que o ponto de partida é completamente outro. Por isso, não é má idéia diminuir o montante aplicado em papéis na bolsa. Quem for mais avesso ao risco deve considerar a possibilidade de buscar a ajuda dos gestores de fundos de ações, em vez de tentar escolher os papéis nos quais colocar o dinheiro.

Um ano para o investidor ficar de olho
2008 começa com incertezas. Confira abaixo alguns eventos que devem mexer com a economia e os mercados
FEVEREIRO
Anúncio do IPCA de janeiro, que, se vier acima das expectativas (entre 0,5% e 0,7%), pode influenciar o Copom a aumentar os juros e provocar queda na Bovespa

Índice de preços e indicadores de atividade nos Estados Unidos podem dar dimensão do tamanho da crise americana
MARÇO
Início da colheita da safra recorde de grãos, estimada em 136 milhões de toneladas

No dia 5, o mercado financeiro estará de olho na reunião do Copom
ABRIL
Prévia do PIB americano do primeiro trimestre de 2008. Se o número vier abaixo do esperado, as bolsas podem despencar no mundo todo
MAIO
Novos números de emprego e atividade econômica nos Estados Unidos despertam a atenção do mercado
JUNHO
Época de furacões no Caribe e na América do Norte, que costumam causar impactos na produção de petróleo nas regiões

Anúncio do PIB do primeiro trimestre nos Estados Unidos
JULHO
O Japão sedia a reunião de cúpula do G8, na qual o principal tema será o meio ambiente
AGOSTO
Começam os Jogos Olímpicos de Pequim, em que 10 500 atletas irão competir em 28 modalidades esportivas
OUTUBRO
Divulgação do relatório do Fundo Monetário Internacional sobre economia mundial
NOVEMBRO
Os americanos terão de escolher o sucessor de George W. Bush na Casa Branca
DEZEMBRO
Conferência Geral da Organização Mundial do Comércio ocorre em Genebra


O PADRÃO DO MERCADO DE CAPITAIS TAMBÉM É OUTRO. Até bem recentemente, as aberturas de capital -- conhecidas pela sigla em inglês IPO -- eram uma seqüência de casos de sucesso. A previsão para este ano é distinta. O número de aberturas deve cair para a metade e os preços provavelmente sofrerão ajuste. Caso esse cenário se confirme, aqueles aplicadores com queda pela especulação -- os que reservam ações e vendem tudo já no dia da abertura -- tomarão muito mais riscos. É verdade que os altos e baixos das últimas semanas deram um novo apelo a uma série de ações. Se as previsões de mais turbulências ao longo do ano se materializarem, boas oportunidades vão certamente surgir. Ainda assim, o conselho dos especialistas ouvidos por EXAME é para que se controlem certos impulsos. "Enquanto a turbulência continuar, o apetite do investidor deve ser comedido", diz Mário Felisberto, diretor de investimentos do HSBC. Ou seja, por enquanto é preferível deixar de ganhar do que arriscar perder.

A bolsa, é bom que se diga, ainda está em primeiro lugar na lista dos investimentos mais rentáveis dos últimos 12 meses. É certo que o Índice Bovespa caiu neste começo de ano, mas sua valorização de janeiro a dezembro do ano passado foi de 44%. E a previsão é que a bolsa feche 2008 em 75 000 -- saindo do patamar de 60 000 do começo de fevereiro. Não é por acaso que o jornal britânico Financial Times, espécie de bíblia do mundo financeiro internacional, publicou recentemente uma reportagem em que apontava o Brasil como um dos mercados emergentes mais atraentes para este ano. O que os estrangeiros estão vendo é um país com um mercado interno em expansão e no qual o investimento externo direcionado ao setor produtivo não pára de fluir. Enquanto as bolsas oscilam, a economia real dá sinais de fortaleza. Em épocas passadas -- e elas não estão tão distantes assim --, o país ia do céu ao inferno ao primeiro sinal de crise externa. Nesta crise -- que para os mais pessimistas pode jogar a economia americana na lona por um período razoavelmente longo e que para os sensatos não pode ser ignorada --, os efeitos fora da bolsa ainda foram pouco sentidos no Brasil.

Nas últimas duas semanas, uma equipe de oito jornalistas de EXAME falou com mais de 100 economistas, analistas e empresários no Brasil e no exterior com a missão de traçar um cenário mais claro do atual momento da economia e das finanças. Entre todos eles há, obviamente, muita divergência de opiniões, mas a maioria não perdeu a oportunidade de ressaltar o novo status do país. "O Brasil deve crescer menos do que no ano passado, porém não há risco de crise séria", diz Nouriel Roubini, professor de economia da Universidade de Nova York e assessor do presidente Bill Clinton na Casa Branca. "No caso do Brasil, não há nada que preocupe", afirma Edward Prescott, o ganhador do Prêmio Nobel de economia de 2004. São opiniões em linha com outro celebrado economista ouvido por EXAME, o britânico Martin Wolf, colunista do Financial Times: "Os brasileiros podem relaxar".

A prova de que nem tudo é festa, no entanto, veio na semana que antecedeu o Carnaval. Preocupado com a alta dos preços, o Comitê de Política Monetária (Copom), formado pelo presidente e pelos diretores do Banco Central, deixou claro que não irá vacilar em aumentar a taxa básica de juro da economia, a Selic, caso a inflação continue subindo. O anúncio não chega a ser uma surpresa. Ao longo dos últimos oito anos e meio, desde que foi criado o sistema de metas de inflação, o país se acostumou com a luta constante do Banco Central contra a alta de preços. Em grande medida, foram conquistas como essa que colocaram o Brasil no patamar atual. E que permitem olhar, a despeito da crise, o futuro com otimismo. As turbulências devem continuar, as emoções estão garantidas, mas, somando todos os prós e os contras, 2008 pode terminar melhor do que começou.

As regras para 2008
Os conselhos dos especialistas para ganhar dinheiro num ano mais turbulento
1 - SEJA MAIS CAUTELOSO
A recomendação dos especialistas é que o investidor corra menos risco. “Quando há neblina na estrada, o melhor é andar devagar”, diz Alexandre Póvoa, sócio da gestora de recursos Modal. Isso vale para fundos multimercados agressivos, investimentos em ações e contratos da BM&F.
2 - NÃO FAÇA MUDANÇAS BRUSCAS NO PORTFÓLIO
Quem decidiu que irá colocar 35% de seu patrimônio em fundos DI, por exemplo, pode alterar esse índice em, no máximo, 10%. “O que o investidor não pode fazer é mudar seu perfil em razão de uma conjuntura de mercado”, diz Rodrigo Lopes, diretor da gestora Banif Nitor.
3 - APROVEITE AS OPORTUNIDADES DA RENDA FIXA
Por causa da crise, muitas empresas devem emitir títulos de dívida pagando juros mais atraentes do que os de 2007. Para o pequeno investidor, há fundos que aplicam nesse segmento.
4 - NÃO MONITORE A BOLSA TODOS OS DIAS
É obrigação do investidor acompanhar o retorno de suas aplicações. Monitorar o mercado todos os dias, porém, é má idéia — especialmente em momentos de turbulência.“Esse é o primeiro passo para fazer algo impulsivo, o que, num mercado volátil, pode gerar grandes perdas”, diz Mário Felisberto, diretor de investimentos do HSBC.
5 - INVISTA EM AÇÕES DE PERFIS DIFERENTES
Nem sempre os altos e baixos das ações têm explicações lógicas. A desconfiança dos investidores pode fazer o valor de mercado de uma empresa desabar. Para se proteger disso, o recomendado é diversificar a carteira de ações.“Se for aplicar num fundo, escolha um que tenha mais de 30 papéis”, diz Aquiles Mosca, estrategista do ABN Amro.
6 - IPOs: NÃO COMPRE PARA VENDER NO MESMO DIA
Embolsar ganhos rápidos aplicando por um único dia nas ações de empresas que abrem o capital promete ser cada vez mais difícil. No passado, as fortes altas registradas no primeiro dia de pregão de muitas companhias foram motivadas pelo apetite de investidores estrangeiros. Agora, o interesse deles está menor — assim como a valorização das ações.

O Brasil que acelera

O país vive o melhor momento econômico em três décadas, com uma inédita combinação entre estabilidade, aumento do consumo e da renda e investimentos recordes na produção. É a oportunidade de o Brasil ingressar na elite do capitalismo mundial

Germano Lüders

Fábrica da Dell, em São Paulo: o Brasil já é o quinto mercado mundial de computadores e deve ser o terceiro em 2010



Por José Roberto Caetano e Roberta Paduan

EXAME Em sua trajetória rumo à elite do desenvolvimento, todos os países hoje líderes viveram um momento considerado decisivo para a virada econômica. São períodos raros na história, em que uma combinação especial de fatores permite à sociedade desatar antigas amarras do passado e adentrar a modernidade. A transformação da economia japonesa em potência tem como marco o Tratado de Kanagawa, firmado com os Estados Unidos em 1854. A partir daí, os portos foram abertos ao comércio e iniciou-se um processo de intensa industrialização. Foi também nessa época que os Estados Unidos se fortaleceram, com a vitória do norte do país na Guerra de Secessão, a acumulação crescente de capital, uma revolução nos transportes e a expansão territorial, a ponto de, no início do século 20, já terem ultrapassado o Reino Unido como a maior economia mundial. Num caso mais recente, o da China, as reformas econômicas iniciadas por Deng Xiaoping em 1978 promoveram a arrancada que hoje impressiona -- e assusta -- o mundo. O Brasil, ao longo da história, flertou algumas vezes com o crescimento sustentado, sem nunca ter conseguido dar o salto decisivo. A coleção de notícias positivas vindas da economia brasileira neste início de ano, em meio a uma das mais sérias crises financeiras internacionais dos últimos tempos, começa a intrigar homens e mulheres de negócios, economistas e analistas. O investimento estrangeiro bate sucessivos recordes. O país avança rapidamente como mercado consumidor em escala global e já possui o maior mercado acionário emergente. A economia mantém o ritmo forte e cresce sem parar há 24 trimestres. A geração de empregos em 2007 foi a maior em quatro décadas. Grandes empresas, como a Vale, são protagonistas (do lado comprador) de alguns dos maiores negócios mundiais. Nos últimos dias, o frigorífico Friboi anunciou três aquisições internacionais, num total de 1,3 bilhão de dólares. Diante desses fatos, uma questão que costumava fazer parte do anedotário dos brasileiros começa a ser mais uma vez levantada: terá chegado, enfim, a vez do Brasil?

O país continua a ter uma série de problemas -- todos velhos conhecidos --, e eles não desaparecerão da noite para o dia. Alguns são hereditários. Outros foram criados ou reforçados por governos recentes. Há inúmeras travas. Mas a boa notícia é que elas não têm sido suficientemente fortes para barrar o crescimento da economia real -- aquela que aparece no movimento das linhas de montagem, nos classificados de empregos, no comércio internacional, nas safras recordes do agronegócio. Estamos colhendo hoje o resultado de anos de estabilidade e ortodoxia monetária. O que era visto como heresia pelo partido do atual presidente da República ironicamente se tornou seu grande trunfo de governo.

O resultado da inflexibilidade de Luiz Inácio Lula da Silva em relação ao controle da inflação é uma economia vibrante e promissora como não se viu durante três décadas. Uma pesquisa exclusiva feita por EXAME com 136 presidentes de empresas de capital estrangeiro instaladas no país mostra que o humor das matrizes em relação ao Brasil mudou -- para melhor. A maioria desses executivos considera que a economia brasileira está bem melhor do que há cinco anos. Quase 90% deles afirmam que os investimentos na operação local aumentaram nesse período. Olhando para o futuro, as expectativas são de mais crescimento e ampliação dos negócios no país. Tal percepção é materializada, por exemplo, no distrito industrial de Santa Cruz, subúrbio do Rio de Janeiro onde toma forma o maior investimento privado em curso no Brasil. Lá, mais de 14 000 operários trabalham 24 horas por dia para erguer a CSA, siderúrgica de 3 bilhões de euros do grupo alemão ThyssenKrupp. Montadoras como GM, Fiat e Peugeot se sucedem no anúncio de novas fábricas. A previsão é que, até 2012, o Brasil seja responsável pela montagem de 5 milhões de carros por ano. O quinto maior parque de computadores do mundo é um pólo de atração para grandes empresas de tecnologia. "O Brasil é uma das prioridades da Microsoft. O país não apenas está crescendo rapidamente como tem se desenvolvido muito na área de tecnologia e modernizado a infra-estrutura", disse a EXAME Steve Ballmer, presidente mundial da Microsoft. "É uma equação perfeita."

Cada vez mais forte
A dimensão e o crescimento de alguns setores de consumo no Brasil (tamanho do mercado em dólares)
Alimentos industrializados
2002 34 bilhões
2007 67 bilhões
Crescimento de 97%
Automóveis
2002 24 bilhões
2007 38 bilhões
Crescimento de 58%
Roupas e calçados
2002 22 bilhões
2007 33 bilhões
Crescimento de 50%
Cosméticos e higiene pessoal
2002 7,6 bilhões
2007 20,5 bilhões
Crescimento de 70%
Bebidas
2002 8 bilhões
2007 18 bilhões
Crescimento de 125%
Móveis e artefatos domésticos
2002 10 bilhões
2007 17,5 bilhões
Crescimento de 75%
Computadores
2002 10 bilhões
2007 16 bilhões
Crescimento de 60%
Ferramentas e reparos domésticos
2002 8,4 bilhões
2007 13,6 bilhões
Crescimento de 62%

A MUDANÇA EM CURSO NÃO ESCAPOU DO RADAR de um dos mitos do mercado financeiro internacional. Em sua tradicional carta anual aos acionistas, publicada em 29 de fevereiro, o americano Warren Buffett surpreendeu os investidores ao anunciar que sua companhia, a Berkshire Hathaway, havia lucrado 2,3 bilhões de dólares no ano passado apostando no real contra o dólar. Ninguém imaginava que Buffett, que nunca investiu um centavo por aqui, tivesse familiaridade com os movimentos da moeda brasileira. Discretamente, ele comprava reais desde 2002. "Só tínhamos uma posição cambial em 2007. Ela era em -- segurem a respiração -- reais brasileiros", disse Buffett. E arrematou: "Até bem pouco tempo atrás, trocar dólares por reais era impensável. Cinco versões da moeda brasileira viraram confete no século passado. Mas, de 2002 para cá, o real subiu e o dólar caiu todos os anos."

Onde o Brasil já é grande
O mercado consumidor brasileiro coloca o país entre os que mais consomem vários produtos
Pisos e azulejos 2º maior do mundo
Cosméticos 3º maior do mundo
Celulares 3º maior do mundo
Chocolate 4º maior do mundo
Computadores 5º maior do mundo
Refrigerantes 5º maior do mundo
Bebidas alcoólicas 5º maior do mundo
Automóveis 8º maior do mundo
Fontes: Euromonitor, Anfavea, IDC, Abicab e Anfacer

Mais uma vez, o real estável (e forte) e suas conseqüências. Foi a moeda preservada que, em boa medida, fez o mercado consumidor se transformar num dos pilares do crescimento. O consumo brasileiro se expandiu 7% no ano passado, enquanto o produto interno bruto cresceu perto de 5,5%. Boa parte dessa evolução se deve ao crédito, ampliado de 336 bilhões para 1 trilhão de reais nos últimos sete anos -- resultado de uma das mais importantes reformas econômicas do governo Lula. Foi o crédito o motor do espetacular aumento das vendas de bens como automóveis e eletrodomésticos nos últimos dois anos. É daí também que vem o impulso para a explosão em andamento no mercado imobiliário. O Brasil começa, assim, a se aproximar do modelo das grandes economias capitalistas, fartamente irrigadas por crédito. Mesmo com o custo real do dinheiro ainda elevado, a queda dos juros e a ampliação do número de prestações dos crediários já aumentaram sensivelmente o consumo das classes C, D e E, iniciando um processo de inclusão. O movimento de absorção de 20 milhões de pessoas no mercado nos últimos cinco anos está levando o Brasil a ocupar posições cada vez mais relevantes no plano mundial em diversos setores. Esse incremento da demanda gera um subproduto: certo descolamento do país em meio à crise internacional.

"Estou entusiasmado por viver aqui neste momento", afirma Horácio Lafer Piva, um dos sócios da Klabin e ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). "Passei muitos anos vendo empresários atrás de dinheiro para pagar bancos e presenciando negócios quebrarem. Hoje, vejo as pessoas à procura de dinheiro para investir mais, empresas comprando outras ou se fundindo, tornando-se maiores e mais fortes." Empresários e executivos sabem que há muito mais por fazer -- a maioria dos quase 200 milhões de brasileiros permanece excluída de várias categorias de consumo. "As oportunidades no Brasil são imensas", afirma Jeff Fettig, presidente mundial da Whirlpool, fabricante das marcas Brastemp e Consul. Apenas um em cada quatro lares brasileiros tem microondas, e um terço conta com lavadoras. De 2004 para cá, o mercado de eletrodomésticos praticamente dobrou, subindo da oitava posição mundial para a quarta. A Whirlpool vendeu no Brasil um total de 7 milhões de geladeiras, fogões, lavadoras e outros aparelhos no ano passado, um recorde histórico. "O país tem hoje inflação baixa, juros em queda, aumento de renda e baixo endividamento externo. Isso tudo indica um caminho de forte crescimento", diz Fettig.

O que eles pensam do Brasil
Alguns dos homens de negócios mais importantes do planeta disseram a EXAME como vêem a nova fase da economia brasileira
Peter Y. Solmssen
Presidente da Siemens para as Américas
“Na última década, o Brasil deixou de ser um mercado regional para ser um jogador global de grande futuro. As reformas econômicas ajudaram a potencializar o crescimento econômico. As vendas no país dobraram de 2003 a 2006 e esperamos que dobrem novamente até 2010.”
Friedrich Berschauer
Presidente da Bayer CropScience
“O Brasil mostra sua importância internacional todos os dias. Nos últimos 15 anos, o mercado brasileiro de defensivos agrícolas cresceu 10% ao ano, em média. É um dos três mercados mais importantes para a companhia.”
Alberto Weisser
Presidente mundial da Bunge
“O país será cada vez mais importante no cenário mundial e deve trilhar o caminho do desenvolvimento sustentável. Pretendemos concentrar no Brasil a maior parte dos investimentos globais da Bunge nos próximos anos, algo em torno de 1,3 bilhão de dólares. Entretanto, é necessário que os entraves burocráticos, que muitas vezes dificultam os investimentos, sejam reduzidos.”
Steve Ballmer
Presidente mundial da Microsoft
“O Brasil é uma das prioridades de crescimento da Microsoft, devido, principalmente, à forte densidade demográfica, à estabilidade econômica e ao crescimento da base de computadores. Não é somente um grande país crescendo rapidamente, é também um país que tem se desenvolvido muito na área de tecnologia e modernizado sua infraestrutura. Essa é realmente uma equação perfeita.”
William Burns
Presidente mundial da divisão farmacêutica da Roche
“O tamanho da população e as atuais taxas de crescimento da economia brasileira são muito atraentes, principalmente se comparadas às baixas taxas dos países desenvolvidos. Há ainda muito espaço no Brasil para melhorias em proteção a patentes e tempo de registro, mas uma prova concreta de nossa confiança no país são os investimentos de 70 milhões de dólares na fábrica do Rio de Janeiro.”

A VIA PARA OS FABRICANTES DE COMPUTADORES também é ampla. Mesmo com os 11 milhões de unidades vendidos no ano passado, apenas 23% das residências do país contam com PCs. O Brasil atingiu o posto de quinto maior mercado mundial do setor, mas até 2010 deve se tornar o terceiro -- atrás apenas de China e Estados Unidos. A expansão do mercado motivou a americana Dell em 2007 a inaugurar uma nova fábrica, em Hortolândia, no interior de São Paulo, e a passar a vender no grande varejo. Um caminho seguido pela chinesa Lenovo. "Espero atender o varejo ainda neste ano", diz Marcelo Medeiros, gerente-geral da Lenovo no Brasil. "Isso pode nos garantir uma taxa de crescimento de três dígitos ao ano." São perspectivas desse tipo que colocam o país ao lado de Rússia, Índia e China para formar o Bric -- o bloco das grandes economias do futuro cobiçadas por empresas do mundo inteiro. Na sede mundial da alemã Nivea, os países emergentes são a chave para o crescimento da companhia desde 2005. "O Brasil, maior mercado da empresa entre os Bric, é um dos países mais importantes para nossa estratégia global", diz Thomas Quass, presidente mundial da Nivea. As vendas no país cresceram 22% em 2007. "Minha missão é continuar crescendo à média de 15% nos próximos anos", afirma Nicolas Fischer, presidente da subsidiária brasileira. Pode não ser uma expansão como a vista nos relatórios chineses, mas é uma enormidade para um grupo acostumado a lidar com mercados maduros, como o europeu.

É verdade que o Brasil contou com uma grande ajuda externa para avançar até esse novo estágio -- o fator China. O país cresce há 15 anos à taxa de 10% e chegou a 2002 com tamanho suficiente para transformar a economia mundial. O Brasil foi um dos grandes beneficiados pela alta dos preços de matérias-primas, provocada pela voracidade de seu consumo. O volume espetacular de compras da China mais que dobrou o preço das commodities nos últimos seis anos. Foi esse fenômeno que catapultou as exportações brasileiras do agronegócio e de minérios, tornando a balança comercial e de pagamentos positiva a ponto de estabilizar o câmbio e permitir que o país acumulasse 200 bilhões de dólares em reservas internacionais. Nada faz pensar que a China estancará. A Vale acaba de reajustar em 65% o preço do minério de ferro que fornece aos chineses. O superciclo das commodities e o crescimento da economia mundial foram duplamente benignos para o Brasil. Por um lado, o país recebeu forte estímulo ao crescimento. Por outro, deixou de ser devedor internacional ao deter créditos superiores aos de sua dívida externa. Exageros na comemoração à parte, esse é um marco importante. "A história da economia brasileira é a história da falta de dólares", afirma o economista Sérgio Vale, da consultoria MB Associados. Antigamente, quando ocorria uma crise internacional, o Brasil sofria fuga de capitais, dada a desconfiança de que o país não conseguiria honrar dívidas. A moeda brasileira se desvalorizava e o resultado era o aumento da inflação, ao que o Banco Central tinha de reagir com elevação da taxa de juro. Como conseqüência, a economia esfriava, provocando os famosos "vôos de galinha" -- um recuo no crescimento logo após a decolagem. "O grande mérito da política econômica foi interromper os mecanismos de auto-alimentação de crises que existiam no passado", diz Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. "Hoje, estamos livres desse padrão e por isso a economia cresce, sem gerar desequilíbrios, há 24 trimestres." Segundo Meirelles, a estabilidade monetária e cambial faz também com que as empresas se abram para buscar fornecedores globalmente e invistam mais em equipamentos modernos. Isso, por sua vez, torna a economia mais competitiva e capaz de crescer a taxas mais elevadas e consistentes.

Tantas mudanças não costumam escapar dos especialistas internacionais -- muitas vezes mais ágeis para enxergar cenários. "Sem negar os inúmeros problemas que ainda precisam ser enfrentados, o Brasil deixou de ser visto como um experimento de laboratório, uma caixa de sustos, para ser percebido como um país que pratica uma economia moderna", afirma o economista Tom Trebat, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Columbia. O bom humor com o Brasil é visível em editoriais das principais publicações do mundo. Para a revista inglesa The Economist, o país jamais esteve tão preparado para enfrentar turbulências. Para o jornal Financial Times, a economia brasileira parece hoje imune à crise americana.

A mudança de imagem se reflete em diversas situações vividas por quem faz negócios no país. Uma história pessoal de Stefano Bridelli, presidente da subsidiária da consultoria de estratégia Bain & Company, mostra a descoberta do Brasil pelos fundos estrangeiros de private equity, especializados em comprar participações em empresas. Todo ano, Bridelli bate à porta de grandes fundos nos Estados Unidos e na Europa para tentar vender serviços de consultoria a quem queira investir no Brasil. "Há cinco anos, eles me recebiam educadamente, perguntavam como tinha sido minha viagem e me desejavam uma boa volta", diz. "Nas últimas visitas que fiz, tomei um susto com o nível de informação e interesse no Brasil." Segundo Bridelli, atualmente a Bain trabalha para fundos em quatro projetos, todos de investimentos acima de 100 milhões de dólares.

A saída para eles está na Bolsa de Valores de São Paulo, a maior e mais estruturada entre os países emergentes. Em 2007, foram realizadas 64 aberturas de capital na Bovespa. Juntas, representaram uma captação de 56 bilhões de reais -- dinheiro na veia para empresas em busca de musculatura. A bolsa é uma fonte de capitalização que praticamente não funcionava para a maioria das companhias brasileiras até cinco anos atrás. Entre as maiores aberturas de 2007 está justamente a das duas bolsas brasileiras: a Bovespa, de ações, e a BM&F, de futuros. As duas agora negociam uma fusão que pode criar a segunda maior bolsa das Américas.

Um dos principais indicadores da mudança de percepção é a iminência de o Brasil receber o selo de grau de investimento -- um atestado de que o país não oferece mais risco de dar calote na dívida. "Há mais de um ano o mercado financeiro trabalha com essa possibilidade", diz Mauro Leos, vice-presidente da agência de classificação Moody's. "Portanto, não será nenhuma surpresa quando acontecer." Outra agência, a Standard & Poor's, prevê que o grau de investimento pode vir ainda em 2008. Muitos investidores já se antecipam. O fluxo de investimento direto estrangeiro no país bateu recorde, quase dobrando no ano passado. Considerando o que entrou em janeiro, o patamar do investimento agora subiu para 37 bilhões de dólares em 12 meses. Mais que quantidade, é um investimento de qualidade. Na média do mundo, dois terços do dinheiro que entra como investimento direto são direcionados a fusões e aquisições, e um terço segue para novos empreendimentos. No Brasil, a maior parte vem sendo alocada em ampliação ou início de operações. "O maior investimento que nosso grupo está fazendo hoje se encontra aqui", afirma Franklin Feder, presidente da subsidiária da americana Alcoa, fabricante de alumínio. De acordo com ele, 5,5 bilhões de dólares devem ser aplicados até 2010 em minas de bauxita, ampliação de fábricas e construção de hidrelétricas. O agronegócio, setor que já representa 30% do PIB, tem atraído grandes volumes de recursos estrangeiros. A americana John Deere está inaugurando uma fábrica de tratores e colheitadeiras no Rio Grande do Sul, orçada em 250 milhões de dólares. "O Brasil se tornou um líder na produção agrícola de alimentos, biocombustíveis e fibras", diz Robert Lane, presidente mundial da John Deere.

O crescimento -- que muitos analistas consideram sustentável -- da economia brasileira é um processo que se desenrola há anos. "Não estamos falando de uma revolução, mas de uma fase de amadurecimento sem paralelo iniciada no Plano Real", diz o americano John Williamson, considerado o idealizador das políticas econômicas reunidas sob o selo do Consenso de Washington. O controle da inflação, alcançado em 1994, foi a base para as inúmeras transformações. Ajudou, por exemplo, a aumentar o poder de compra do brasileiro. Só nos dois últimos anos, a renda das famílias no país cresceu quase 20%, o que impulsionou o consumo. Já descontada a inflação, o aumento correspondeu a 194 bilhões de reais a mais no ganho das famílias em relação a 2005. O resultado disso tudo é um crescimento econômico de 4,5%, em média, nos últimos quatro anos. Desde o milagre econômico, nos anos 70, o país não crescia tanto por anos seguidos. "A diferença é que o crescimento atual é mais saudável", afirma o consultor Vale, da MB. Trata-se de uma expansão muito menos impelida pelo Estado, e com forte contribuição do setor privado, que se abriu para a competição mundial nos últimos 30 anos.

Mais crescimento e investimento. Mas ainda com cautela
EXAME realizou uma pesquisa com os presidentes de 136 das maiores empresas de capital estrangeiro instaladas no país para verificar a percepção sobre a evolução da economia brasileira e suas perspectivas. Eis os resultados:
Momento atual
Em relação a cinco anos atrás
47% A economia está melhor, mas a matriz mantém cautela
46% O Brasil está muito melhor e inspira total confiança
7% Só com reformas o país irá inspirar mais confiança
Em comparação com outros países
49% O Brasil já é um dos maiores mercados do grupo no mundo
46% A subsidiária ainda não é tão grande, mas deve crescer
5% A operação local está perdendo posições
No que diz respeito a investimentos
86% A empresa investe hoje no Brasil mais do que há cinco anos
10% A empresa mantém a média de investimentos
4% A empresa reduziu investimentos nos últimos cinco anos
Perspectivas
A expectativa da empresa em relação ao futuro do país
51% Há risco de o país voltar aos “vôos de galinha”
47% A economia tende a ser cada vez mais sólida
2% O Brasil deve sofrer muito com a crise mundial
No plano dos investimentos futuros
76% A empresa deve aumentar os investimento
18% A empresa quer investir apenas para manter a posição no país
6% A empresa pode diminuir a operação no Brasil
O cenário vislumbrado para o setor em que opera
60% O mercado tende a crescer fortemente
39% O mercado deve crescer a taxas modestas
1% O mercado não tem perspectiva de expansão

OTIMISMO EXAGERADO? UFANISMO? Preste atenção nas palavras do economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, dono da gestora de investimento Quest, ex-ministro do governo Fernando Henrique Cardoso e um dos mais contundentes críticos da gestão Lula. "O Brasil está finalmente no caminho para deixar de ser o eterno gigante adormecido e se tornar uma das economias mais importantes do mundo", afirma ele. Diante dos recentes resultados da economia, até mesmo a ala mais radical do PT se calou. Quando se olha para o futuro, parecem reduzidas as chances de sucesso eleitoral de alguém à esquerda de Lula. Ou seja, o Brasil pode ter se livrado do populismo que ainda assola o continente e impede o surgimento de uma economia madura de mercado. "No futuro, os anos 2000 serão vistos como aqueles em que o Brasil mudou de rumo", afirma o economista Trebat, de Columbia. "Não há projeto político nem opinião pública favoráveis à mudança desse rumo, que é claramente no sentido de um país democrático politicamente, estável e cada vez mais globalizado."

Um teste importante que está por vir será a convivência com déficit em conta corrente e superávit comercial menor. Projeta-se um déficit em conta corrente no ano de 4 bilhões de dólares, o primeiro resultado negativo desde 2002. É algo a ser acompanhado com atenção, mas especialistas consideram que por ora não há luz amarela. "É saudável que um país como o Brasil tenha um pequeno déficit", diz o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga. Além disso, é preciso considerar que o câmbio flutuante jogaria a favor de um reequilíbrio caso o déficit começasse a crescer demais. E há ainda o fato de que o déficit hoje tende a ser financiado pela entrada de investimentos -- e não por endividamento, como ocorria no passado. É uma poupança externa que o país está absorvendo -- e necessita absorver, porque a taxa de poupança doméstica é baixa. "A luz vermelha acenderia se voltássemos a nos financiar com endividamento", diz Fraga.

Hoje, o maior risco de o país não aproveitar o bom momento está no próprio Brasil. "No curto prazo, vamos bem", diz Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central e economista-chefe do banco ABN Real Amro. "Mas os níveis de gastos do governo, que são altos e continuam crescendo, não são sustentáveis no longo prazo." O crescimento real do gasto federal tem sido de 7% ao ano, o que está sendo absorvido com o aumento de arrecadação tributária. Porém, em dez anos, isso exigiria que a carga subisse dos atuais 38% para mais de 50% do PIB. A reforma tributária é considerada fundamental para reverter essa situação (veja quadro ao lado). Para Armínio Fraga, outras frentes a ser atacadas são a regulação dos setores de infra-estrutura e a melhoria do ambiente de negócios. Sem isso, fica difícil sonhar em ser uma economia capitalista de primeiro time. "Estamos classificados no 121o lugar no ranking do Banco Mundial que mede a qualidade do ambiente de negócios", diz Fraga. "Deveríamos fixar como meta chegar aos 30 primeiros do ranking. Isso aumentaria a eficiência da nossa economia e os investimentos."

São obstáculos que precisam ser encarados, sob pena de reverter uma tendência auspiciosa que o Brasil começou a experimentar. Na história, alguns países atrasados souberam tomar as decisões corretas e conseguiram subir a um patamar mais alto. Assim foi recentemente com a Coréia. É o que estão tentando agora a China e a Índia. Há diferenças entre todos os casos, claro. Mas é certo que o Brasil está diante de uma oportunidade única de escolher em que degrau pretende estar mais à frente. O presente nunca foi tão promissor para o país do futuro.