O país vive o melhor momento econômico em três décadas, com uma inédita combinação entre estabilidade, aumento do consumo e da renda e investimentos recordes na produção. É a oportunidade de o Brasil ingressar na elite do capitalismo mundial
Germano Lüders
Fábrica da Dell, em São Paulo: o Brasil já é o quinto mercado mundial de computadores e deve ser o terceiro em 2010
Por José Roberto Caetano e Roberta Paduan
EXAME Em sua trajetória rumo à elite do desenvolvimento, todos os países hoje líderes viveram um momento considerado decisivo para a virada econômica. São períodos raros na história, em que uma combinação especial de fatores permite à sociedade desatar antigas amarras do passado e adentrar a modernidade. A transformação da economia japonesa em potência tem como marco o Tratado de Kanagawa, firmado com os Estados Unidos em 1854. A partir daí, os portos foram abertos ao comércio e iniciou-se um processo de intensa industrialização. Foi também nessa época que os Estados Unidos se fortaleceram, com a vitória do norte do país na Guerra de Secessão, a acumulação crescente de capital, uma revolução nos transportes e a expansão territorial, a ponto de, no início do século 20, já terem ultrapassado o Reino Unido como a maior economia mundial. Num caso mais recente, o da China, as reformas econômicas iniciadas por Deng Xiaoping em 1978 promoveram a arrancada que hoje impressiona -- e assusta -- o mundo. O Brasil, ao longo da história, flertou algumas vezes com o crescimento sustentado, sem nunca ter conseguido dar o salto decisivo. A coleção de notícias positivas vindas da economia brasileira neste início de ano, em meio a uma das mais sérias crises financeiras internacionais dos últimos tempos, começa a intrigar homens e mulheres de negócios, economistas e analistas. O investimento estrangeiro bate sucessivos recordes. O país avança rapidamente como mercado consumidor em escala global e já possui o maior mercado acionário emergente. A economia mantém o ritmo forte e cresce sem parar há 24 trimestres. A geração de empregos em 2007 foi a maior em quatro décadas. Grandes empresas, como a Vale, são protagonistas (do lado comprador) de alguns dos maiores negócios mundiais. Nos últimos dias, o frigorífico Friboi anunciou três aquisições internacionais, num total de 1,3 bilhão de dólares. Diante desses fatos, uma questão que costumava fazer parte do anedotário dos brasileiros começa a ser mais uma vez levantada: terá chegado, enfim, a vez do Brasil?
O país continua a ter uma série de problemas -- todos velhos conhecidos --, e eles não desaparecerão da noite para o dia. Alguns são hereditários. Outros foram criados ou reforçados por governos recentes. Há inúmeras travas. Mas a boa notícia é que elas não têm sido suficientemente fortes para barrar o crescimento da economia real -- aquela que aparece no movimento das linhas de montagem, nos classificados de empregos, no comércio internacional, nas safras recordes do agronegócio. Estamos colhendo hoje o resultado de anos de estabilidade e ortodoxia monetária. O que era visto como heresia pelo partido do atual presidente da República ironicamente se tornou seu grande trunfo de governo.
O resultado da inflexibilidade de Luiz Inácio Lula da Silva em relação ao controle da inflação é uma economia vibrante e promissora como não se viu durante três décadas. Uma pesquisa exclusiva feita por EXAME com 136 presidentes de empresas de capital estrangeiro instaladas no país mostra que o humor das matrizes em relação ao Brasil mudou -- para melhor. A maioria desses executivos considera que a economia brasileira está bem melhor do que há cinco anos. Quase 90% deles afirmam que os investimentos na operação local aumentaram nesse período. Olhando para o futuro, as expectativas são de mais crescimento e ampliação dos negócios no país. Tal percepção é materializada, por exemplo, no distrito industrial de Santa Cruz, subúrbio do Rio de Janeiro onde toma forma o maior investimento privado em curso no Brasil. Lá, mais de 14 000 operários trabalham 24 horas por dia para erguer a CSA, siderúrgica de 3 bilhões de euros do grupo alemão ThyssenKrupp. Montadoras como GM, Fiat e Peugeot se sucedem no anúncio de novas fábricas. A previsão é que, até 2012, o Brasil seja responsável pela montagem de 5 milhões de carros por ano. O quinto maior parque de computadores do mundo é um pólo de atração para grandes empresas de tecnologia. "O Brasil é uma das prioridades da Microsoft. O país não apenas está crescendo rapidamente como tem se desenvolvido muito na área de tecnologia e modernizado a infra-estrutura", disse a EXAME Steve Ballmer, presidente mundial da Microsoft. "É uma equação perfeita."
| Cada vez mais forte |
| A dimensão e o crescimento de alguns setores de consumo no Brasil (tamanho do mercado em dólares) |
| Alimentos industrializados |
| 2002 | 34 bilhões |
| 2007 | 67 bilhões |
| Crescimento de 97% |
| Automóveis |
| 2002 | 24 bilhões |
| 2007 | 38 bilhões |
| Crescimento de 58% |
| Roupas e calçados |
| 2002 | 22 bilhões |
| 2007 | 33 bilhões |
| Crescimento de 50% |
| Cosméticos e higiene pessoal |
| 2002 | 7,6 bilhões |
| 2007 | 20,5 bilhões |
| Crescimento de 70% |
| Bebidas |
| 2002 | 8 bilhões |
| 2007 | 18 bilhões |
| Crescimento de 125% |
| Móveis e artefatos domésticos |
| 2002 | 10 bilhões |
| 2007 | 17,5 bilhões |
| Crescimento de 75% |
| Computadores |
| 2002 | 10 bilhões |
| 2007 | 16 bilhões |
| Crescimento de 60% |
| Ferramentas e reparos domésticos |
| 2002 | 8,4 bilhões |
| 2007 | 13,6 bilhões |
| Crescimento de 62% |
A MUDANÇA EM CURSO NÃO ESCAPOU DO RADAR de um dos mitos do mercado financeiro internacional. Em sua tradicional carta anual aos acionistas, publicada em 29 de fevereiro, o americano Warren Buffett surpreendeu os investidores ao anunciar que sua companhia, a Berkshire Hathaway, havia lucrado 2,3 bilhões de dólares no ano passado apostando no real contra o dólar. Ninguém imaginava que Buffett, que nunca investiu um centavo por aqui, tivesse familiaridade com os movimentos da moeda brasileira. Discretamente, ele comprava reais desde 2002. "Só tínhamos uma posição cambial em 2007. Ela era em -- segurem a respiração -- reais brasileiros", disse Buffett. E arrematou: "Até bem pouco tempo atrás, trocar dólares por reais era impensável. Cinco versões da moeda brasileira viraram confete no século passado. Mas, de 2002 para cá, o real subiu e o dólar caiu todos os anos."
| Onde o Brasil já é grande |
| O mercado consumidor brasileiro coloca o país entre os que mais consomem vários produtos |
| Pisos e azulejos | 2º maior do mundo |
| Cosméticos | 3º maior do mundo |
| Celulares | 3º maior do mundo |
| Chocolate | 4º maior do mundo |
| Computadores | 5º maior do mundo |
| Refrigerantes | 5º maior do mundo |
| Bebidas alcoólicas | 5º maior do mundo |
| Automóveis | 8º maior do mundo |
| Fontes: Euromonitor, Anfavea, IDC, Abicab e Anfacer |
Mais uma vez, o real estável (e forte) e suas conseqüências. Foi a moeda preservada que, em boa medida, fez o mercado consumidor se transformar num dos pilares do crescimento. O consumo brasileiro se expandiu 7% no ano passado, enquanto o produto interno bruto cresceu perto de 5,5%. Boa parte dessa evolução se deve ao crédito, ampliado de 336 bilhões para 1 trilhão de reais nos últimos sete anos -- resultado de uma das mais importantes reformas econômicas do governo Lula. Foi o crédito o motor do espetacular aumento das vendas de bens como automóveis e eletrodomésticos nos últimos dois anos. É daí também que vem o impulso para a explosão em andamento no mercado imobiliário. O Brasil começa, assim, a se aproximar do modelo das grandes economias capitalistas, fartamente irrigadas por crédito. Mesmo com o custo real do dinheiro ainda elevado, a queda dos juros e a ampliação do número de prestações dos crediários já aumentaram sensivelmente o consumo das classes C, D e E, iniciando um processo de inclusão. O movimento de absorção de 20 milhões de pessoas no mercado nos últimos cinco anos está levando o Brasil a ocupar posições cada vez mais relevantes no plano mundial em diversos setores. Esse incremento da demanda gera um subproduto: certo descolamento do país em meio à crise internacional.
"Estou entusiasmado por viver aqui neste momento", afirma Horácio Lafer Piva, um dos sócios da Klabin e ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). "Passei muitos anos vendo empresários atrás de dinheiro para pagar bancos e presenciando negócios quebrarem. Hoje, vejo as pessoas à procura de dinheiro para investir mais, empresas comprando outras ou se fundindo, tornando-se maiores e mais fortes." Empresários e executivos sabem que há muito mais por fazer -- a maioria dos quase 200 milhões de brasileiros permanece excluída de várias categorias de consumo. "As oportunidades no Brasil são imensas", afirma Jeff Fettig, presidente mundial da Whirlpool, fabricante das marcas Brastemp e Consul. Apenas um em cada quatro lares brasileiros tem microondas, e um terço conta com lavadoras. De 2004 para cá, o mercado de eletrodomésticos praticamente dobrou, subindo da oitava posição mundial para a quarta. A Whirlpool vendeu no Brasil um total de 7 milhões de geladeiras, fogões, lavadoras e outros aparelhos no ano passado, um recorde histórico. "O país tem hoje inflação baixa, juros em queda, aumento de renda e baixo endividamento externo. Isso tudo indica um caminho de forte crescimento", diz Fettig.
| O que eles pensam do Brasil |
| Alguns dos homens de negócios mais importantes do planeta disseram a EXAME como vêem a nova fase da economia brasileira |
Peter Y. Solmssen Presidente da Siemens para as Américas |
| “Na última década, o Brasil deixou de ser um mercado regional para ser um jogador global de grande futuro. As reformas econômicas ajudaram a potencializar o crescimento econômico. As vendas no país dobraram de 2003 a 2006 e esperamos que dobrem novamente até 2010.” |
Friedrich Berschauer Presidente da Bayer CropScience |
| “O Brasil mostra sua importância internacional todos os dias. Nos últimos 15 anos, o mercado brasileiro de defensivos agrícolas cresceu 10% ao ano, em média. É um dos três mercados mais importantes para a companhia.” |
Alberto Weisser Presidente mundial da Bunge |
| “O país será cada vez mais importante no cenário mundial e deve trilhar o caminho do desenvolvimento sustentável. Pretendemos concentrar no Brasil a maior parte dos investimentos globais da Bunge nos próximos anos, algo em torno de 1,3 bilhão de dólares. Entretanto, é necessário que os entraves burocráticos, que muitas vezes dificultam os investimentos, sejam reduzidos.” |
Steve Ballmer Presidente mundial da Microsoft |
| “O Brasil é uma das prioridades de crescimento da Microsoft, devido, principalmente, à forte densidade demográfica, à estabilidade econômica e ao crescimento da base de computadores. Não é somente um grande país crescendo rapidamente, é também um país que tem se desenvolvido muito na área de tecnologia e modernizado sua infraestrutura. Essa é realmente uma equação perfeita.” |
William Burns Presidente mundial da divisão farmacêutica da Roche |
| “O tamanho da população e as atuais taxas de crescimento da economia brasileira são muito atraentes, principalmente se comparadas às baixas taxas dos países desenvolvidos. Há ainda muito espaço no Brasil para melhorias em proteção a patentes e tempo de registro, mas uma prova concreta de nossa confiança no país são os investimentos de 70 milhões de dólares na fábrica do Rio de Janeiro.” |
A VIA PARA OS FABRICANTES DE COMPUTADORES também é ampla. Mesmo com os 11 milhões de unidades vendidos no ano passado, apenas 23% das residências do país contam com PCs. O Brasil atingiu o posto de quinto maior mercado mundial do setor, mas até 2010 deve se tornar o terceiro -- atrás apenas de China e Estados Unidos. A expansão do mercado motivou a americana Dell em 2007 a inaugurar uma nova fábrica, em Hortolândia, no interior de São Paulo, e a passar a vender no grande varejo. Um caminho seguido pela chinesa Lenovo. "Espero atender o varejo ainda neste ano", diz Marcelo Medeiros, gerente-geral da Lenovo no Brasil. "Isso pode nos garantir uma taxa de crescimento de três dígitos ao ano." São perspectivas desse tipo que colocam o país ao lado de Rússia, Índia e China para formar o Bric -- o bloco das grandes economias do futuro cobiçadas por empresas do mundo inteiro. Na sede mundial da alemã Nivea, os países emergentes são a chave para o crescimento da companhia desde 2005. "O Brasil, maior mercado da empresa entre os Bric, é um dos países mais importantes para nossa estratégia global", diz Thomas Quass, presidente mundial da Nivea. As vendas no país cresceram 22% em 2007. "Minha missão é continuar crescendo à média de 15% nos próximos anos", afirma Nicolas Fischer, presidente da subsidiária brasileira. Pode não ser uma expansão como a vista nos relatórios chineses, mas é uma enormidade para um grupo acostumado a lidar com mercados maduros, como o europeu.
É verdade que o Brasil contou com uma grande ajuda externa para avançar até esse novo estágio -- o fator China. O país cresce há 15 anos à taxa de 10% e chegou a 2002 com tamanho suficiente para transformar a economia mundial. O Brasil foi um dos grandes beneficiados pela alta dos preços de matérias-primas, provocada pela voracidade de seu consumo. O volume espetacular de compras da China mais que dobrou o preço das commodities nos últimos seis anos. Foi esse fenômeno que catapultou as exportações brasileiras do agronegócio e de minérios, tornando a balança comercial e de pagamentos positiva a ponto de estabilizar o câmbio e permitir que o país acumulasse 200 bilhões de dólares em reservas internacionais. Nada faz pensar que a China estancará. A Vale acaba de reajustar em 65% o preço do minério de ferro que fornece aos chineses. O superciclo das commodities e o crescimento da economia mundial foram duplamente benignos para o Brasil. Por um lado, o país recebeu forte estímulo ao crescimento. Por outro, deixou de ser devedor internacional ao deter créditos superiores aos de sua dívida externa. Exageros na comemoração à parte, esse é um marco importante. "A história da economia brasileira é a história da falta de dólares", afirma o economista Sérgio Vale, da consultoria MB Associados. Antigamente, quando ocorria uma crise internacional, o Brasil sofria fuga de capitais, dada a desconfiança de que o país não conseguiria honrar dívidas. A moeda brasileira se desvalorizava e o resultado era o aumento da inflação, ao que o Banco Central tinha de reagir com elevação da taxa de juro. Como conseqüência, a economia esfriava, provocando os famosos "vôos de galinha" -- um recuo no crescimento logo após a decolagem. "O grande mérito da política econômica foi interromper os mecanismos de auto-alimentação de crises que existiam no passado", diz Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. "Hoje, estamos livres desse padrão e por isso a economia cresce, sem gerar desequilíbrios, há 24 trimestres." Segundo Meirelles, a estabilidade monetária e cambial faz também com que as empresas se abram para buscar fornecedores globalmente e invistam mais em equipamentos modernos. Isso, por sua vez, torna a economia mais competitiva e capaz de crescer a taxas mais elevadas e consistentes.
Tantas mudanças não costumam escapar dos especialistas internacionais -- muitas vezes mais ágeis para enxergar cenários. "Sem negar os inúmeros problemas que ainda precisam ser enfrentados, o Brasil deixou de ser visto como um experimento de laboratório, uma caixa de sustos, para ser percebido como um país que pratica uma economia moderna", afirma o economista Tom Trebat, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Columbia. O bom humor com o Brasil é visível em editoriais das principais publicações do mundo. Para a revista inglesa The Economist, o país jamais esteve tão preparado para enfrentar turbulências. Para o jornal Financial Times, a economia brasileira parece hoje imune à crise americana.
A mudança de imagem se reflete em diversas situações vividas por quem faz negócios no país. Uma história pessoal de Stefano Bridelli, presidente da subsidiária da consultoria de estratégia Bain & Company, mostra a descoberta do Brasil pelos fundos estrangeiros de private equity, especializados em comprar participações em empresas. Todo ano, Bridelli bate à porta de grandes fundos nos Estados Unidos e na Europa para tentar vender serviços de consultoria a quem queira investir no Brasil. "Há cinco anos, eles me recebiam educadamente, perguntavam como tinha sido minha viagem e me desejavam uma boa volta", diz. "Nas últimas visitas que fiz, tomei um susto com o nível de informação e interesse no Brasil." Segundo Bridelli, atualmente a Bain trabalha para fundos em quatro projetos, todos de investimentos acima de 100 milhões de dólares.
A saída para eles está na Bolsa de Valores de São Paulo, a maior e mais estruturada entre os países emergentes. Em 2007, foram realizadas 64 aberturas de capital na Bovespa. Juntas, representaram uma captação de 56 bilhões de reais -- dinheiro na veia para empresas em busca de musculatura. A bolsa é uma fonte de capitalização que praticamente não funcionava para a maioria das companhias brasileiras até cinco anos atrás. Entre as maiores aberturas de 2007 está justamente a das duas bolsas brasileiras: a Bovespa, de ações, e a BM&F, de futuros. As duas agora negociam uma fusão que pode criar a segunda maior bolsa das Américas.
Um dos principais indicadores da mudança de percepção é a iminência de o Brasil receber o selo de grau de investimento -- um atestado de que o país não oferece mais risco de dar calote na dívida. "Há mais de um ano o mercado financeiro trabalha com essa possibilidade", diz Mauro Leos, vice-presidente da agência de classificação Moody's. "Portanto, não será nenhuma surpresa quando acontecer." Outra agência, a Standard & Poor's, prevê que o grau de investimento pode vir ainda em 2008. Muitos investidores já se antecipam. O fluxo de investimento direto estrangeiro no país bateu recorde, quase dobrando no ano passado. Considerando o que entrou em janeiro, o patamar do investimento agora subiu para 37 bilhões de dólares em 12 meses. Mais que quantidade, é um investimento de qualidade. Na média do mundo, dois terços do dinheiro que entra como investimento direto são direcionados a fusões e aquisições, e um terço segue para novos empreendimentos. No Brasil, a maior parte vem sendo alocada em ampliação ou início de operações. "O maior investimento que nosso grupo está fazendo hoje se encontra aqui", afirma Franklin Feder, presidente da subsidiária da americana Alcoa, fabricante de alumínio. De acordo com ele, 5,5 bilhões de dólares devem ser aplicados até 2010 em minas de bauxita, ampliação de fábricas e construção de hidrelétricas. O agronegócio, setor que já representa 30% do PIB, tem atraído grandes volumes de recursos estrangeiros. A americana John Deere está inaugurando uma fábrica de tratores e colheitadeiras no Rio Grande do Sul, orçada em 250 milhões de dólares. "O Brasil se tornou um líder na produção agrícola de alimentos, biocombustíveis e fibras", diz Robert Lane, presidente mundial da John Deere.
O crescimento -- que muitos analistas consideram sustentável -- da economia brasileira é um processo que se desenrola há anos. "Não estamos falando de uma revolução, mas de uma fase de amadurecimento sem paralelo iniciada no Plano Real", diz o americano John Williamson, considerado o idealizador das políticas econômicas reunidas sob o selo do Consenso de Washington. O controle da inflação, alcançado em 1994, foi a base para as inúmeras transformações. Ajudou, por exemplo, a aumentar o poder de compra do brasileiro. Só nos dois últimos anos, a renda das famílias no país cresceu quase 20%, o que impulsionou o consumo. Já descontada a inflação, o aumento correspondeu a 194 bilhões de reais a mais no ganho das famílias em relação a 2005. O resultado disso tudo é um crescimento econômico de 4,5%, em média, nos últimos quatro anos. Desde o milagre econômico, nos anos 70, o país não crescia tanto por anos seguidos. "A diferença é que o crescimento atual é mais saudável", afirma o consultor Vale, da MB. Trata-se de uma expansão muito menos impelida pelo Estado, e com forte contribuição do setor privado, que se abriu para a competição mundial nos últimos 30 anos.
| Mais crescimento e investimento. Mas ainda com cautela |
| EXAME realizou uma pesquisa com os presidentes de 136 das maiores empresas de capital estrangeiro instaladas no país para verificar a percepção sobre a evolução da economia brasileira e suas perspectivas. Eis os resultados: |
| Momento atual |
| Em relação a cinco anos atrás |
| 47% | A economia está melhor, mas a matriz mantém cautela |
| 46% | O Brasil está muito melhor e inspira total confiança |
| 7% | Só com reformas o país irá inspirar mais confiança |
| Em comparação com outros países |
| 49% | O Brasil já é um dos maiores mercados do grupo no mundo |
| 46% | A subsidiária ainda não é tão grande, mas deve crescer |
| 5% | A operação local está perdendo posições |
| No que diz respeito a investimentos |
| 86% | A empresa investe hoje no Brasil mais do que há cinco anos |
| 10% | A empresa mantém a média de investimentos |
| 4% | A empresa reduziu investimentos nos últimos cinco anos |
| Perspectivas |
| A expectativa da empresa em relação ao futuro do país |
| 51% | Há risco de o país voltar aos “vôos de galinha” |
| 47% | A economia tende a ser cada vez mais sólida |
| 2% | O Brasil deve sofrer muito com a crise mundial |
| No plano dos investimentos futuros |
| 76% | A empresa deve aumentar os investimento |
| 18% | A empresa quer investir apenas para manter a posição no país |
| 6% | A empresa pode diminuir a operação no Brasil |
| O cenário vislumbrado para o setor em que opera |
| 60% | O mercado tende a crescer fortemente |
| 39% | O mercado deve crescer a taxas modestas |
| 1% | O mercado não tem perspectiva de expansão |
OTIMISMO EXAGERADO? UFANISMO? Preste atenção nas palavras do economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, dono da gestora de investimento Quest, ex-ministro do governo Fernando Henrique Cardoso e um dos mais contundentes críticos da gestão Lula. "O Brasil está finalmente no caminho para deixar de ser o eterno gigante adormecido e se tornar uma das economias mais importantes do mundo", afirma ele. Diante dos recentes resultados da economia, até mesmo a ala mais radical do PT se calou. Quando se olha para o futuro, parecem reduzidas as chances de sucesso eleitoral de alguém à esquerda de Lula. Ou seja, o Brasil pode ter se livrado do populismo que ainda assola o continente e impede o surgimento de uma economia madura de mercado. "No futuro, os anos 2000 serão vistos como aqueles em que o Brasil mudou de rumo", afirma o economista Trebat, de Columbia. "Não há projeto político nem opinião pública favoráveis à mudança desse rumo, que é claramente no sentido de um país democrático politicamente, estável e cada vez mais globalizado."
Um teste importante que está por vir será a convivência com déficit em conta corrente e superávit comercial menor. Projeta-se um déficit em conta corrente no ano de 4 bilhões de dólares, o primeiro resultado negativo desde 2002. É algo a ser acompanhado com atenção, mas especialistas consideram que por ora não há luz amarela. "É saudável que um país como o Brasil tenha um pequeno déficit", diz o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga. Além disso, é preciso considerar que o câmbio flutuante jogaria a favor de um reequilíbrio caso o déficit começasse a crescer demais. E há ainda o fato de que o déficit hoje tende a ser financiado pela entrada de investimentos -- e não por endividamento, como ocorria no passado. É uma poupança externa que o país está absorvendo -- e necessita absorver, porque a taxa de poupança doméstica é baixa. "A luz vermelha acenderia se voltássemos a nos financiar com endividamento", diz Fraga.
Hoje, o maior risco de o país não aproveitar o bom momento está no próprio Brasil. "No curto prazo, vamos bem", diz Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central e economista-chefe do banco ABN Real Amro. "Mas os níveis de gastos do governo, que são altos e continuam crescendo, não são sustentáveis no longo prazo." O crescimento real do gasto federal tem sido de 7% ao ano, o que está sendo absorvido com o aumento de arrecadação tributária. Porém, em dez anos, isso exigiria que a carga subisse dos atuais 38% para mais de 50% do PIB. A reforma tributária é considerada fundamental para reverter essa situação (veja quadro ao lado). Para Armínio Fraga, outras frentes a ser atacadas são a regulação dos setores de infra-estrutura e a melhoria do ambiente de negócios. Sem isso, fica difícil sonhar em ser uma economia capitalista de primeiro time. "Estamos classificados no 121o lugar no ranking do Banco Mundial que mede a qualidade do ambiente de negócios", diz Fraga. "Deveríamos fixar como meta chegar aos 30 primeiros do ranking. Isso aumentaria a eficiência da nossa economia e os investimentos."
São obstáculos que precisam ser encarados, sob pena de reverter uma tendência auspiciosa que o Brasil começou a experimentar. Na história, alguns países atrasados souberam tomar as decisões corretas e conseguiram subir a um patamar mais alto. Assim foi recentemente com a Coréia. É o que estão tentando agora a China e a Índia. Há diferenças entre todos os casos, claro. Mas é certo que o Brasil está diante de uma oportunidade única de escolher em que degrau pretende estar mais à frente. O presente nunca foi tão promissor para o país do futuro.