O desempenho da Bovespa tem superado o de mercados como China, Índia e Rússia. E a boa notícia é que isso deve continuar
Kiko Ferrite
IPO da Bovespa: bolsa mais madura
Por Giuliana Napolitano
EXAMEO Brasil está atrás de China, Índia e Rússia -- seus pares no grupo de países emergentes conhecido como Bric -- em várias frentes. Além de crescer menos que esse trio há anos, é o único entre eles que ainda não tem grau de investimento, o selo das agências de classificação de risco que atesta a baixa probabilidade de um calote da dívida. No que diz respeito à bolsa de valores, porém, a história é outra: o Brasil tem sido o principal destaque dos grandes países emergentes. Trata-se de um movimento que se tornou mais evidente nos últimos oito meses, quando a crise das hipotecas americanas se agravou e deixou os investidores mais seletivos. De agosto de 2007 a meados de abril deste ano, o Índice Bovespa, termômetro do comportamento da bolsa brasileira, teve valorização de 19%. Foi a maior alta entre as 15 principais bolsas de países emergentes. No mesmo período, o principal índice de ações da Rússia subiu 11%. Na Índia e no México, a alta foi de 6%. Outros mercados tiveram perdas nesse intervalo -- a mais impressionante foi a do mercado chinês, no qual a desvalorização beirou 30% (veja quadro). "O interessante é que essa diferença entre o Brasil e os outros emergentes não parece ser algo pontual", diz Juliana Braga, estrategista de investimentos do UBS Pactual Wealth Management. "É parte de um processo de mudança que vem ocorrendo na bolsa e na economia."
Sob a ótica do mercado, a explicação para a valorização acima da média da Bovespa é o fato de a maioria das ações das empresas brasileiras estar barata em relação a seus concorrentes. É possível medir essa diferença de preço por meio de um indicador largamente utilizado por investidores e analistas de mercado -- o índice preço-lucro (P/L), que calcula a relação entre o preço da ação de uma empresa e seu lucro. O resultado dessa conta aponta o número de anos que um acionista tem de esperar para reaver o dinheiro aplicado nos papéis da empresa recebendo apenas os lucros distribuídos por ela. Por isso, quanto menor o P/L, mais barata é a companhia. Na última década, o P/L da bolsa brasileira foi inferior à media dos mercados emergentes -- em 2002, por exemplo, era metade dos demais. "A justificativa era que o Brasil não estava surfando a onda de crescimento e liquidez mundial, como outros emergentes", diz Celso Boin, analista-chefe da corretora Link Investimentos.
Após ter subido quase ininterruptamente por cinco anos, a diferença de preço hoje é muito menor -- está em torno de 10%. O espaço para novas altas, porém, é maior do que isso. Na opinião dos profissionais de mercado consultados por EXAME, as ações brasileiras vão continuar se valorizando acima da média de suas concorrentes no mundo emergente nos próximos meses. Mais do que isso: o P/L da Bovespa pode ultrapassar a média desses países. "O Brasil é um caso único, uma história muito fácil de ser vendida no exterior", diz Jacopo Valentino, diretor de renda variável do BNP Paribas Asset Management. Valentino é o responsável pela gestão de dois fundos internacionais de ações lançados em 2007 para investidores coreanos e japoneses e participou de algumas apresentações feitas a esses clientes. "A bolsa brasileira só entrou agora de forma mais consistente no radar desses investidores, e eles estão entusiasmados", diz o executivo.
| O Brasil é exceção | |
| A bolsa brasileira teve o melhor desempenho dos principais mercados emergentes nos últimos oito meses(1) | |
| Brasil | 19% |
| Rússia | 11% |
| Índia | 6% |
| México | 6% |
| Polônia | -19% |
| China | -26% |
| (1) De 10/8/2007 a 11/4/2008, em moeda local. Foram usados os seguintes índices das bolsas de valores: Ibovespa (Brasil); IPC (México); RTS (Rússia); Shanghai Composite (China); BSE Sensex (Índia); WSE (Polônia) Fontes: Bloomberg e Economática | |
O que explica o otimismo em relação às ações de empresas brasileiras é a visível transformação que vem ocorrendo na economia. Apesar de o desempenho das bolsas de valores depender, em parte, do cenário externo e do aporte de recursos dos investidores estrangeiros, o que sustenta a performance de qualquer mercado no longo prazo é a solidez de suas empresas e os bons fundamentos da economia real. "Nesse ponto, o Brasil leva vantagem porque está em meio a um importante processo de ajuste", diz Juliana Braga, do UBS Pactual. Os principais pontos dessa mudança são o maior crescimento do PIB, a queda dos juros, o equacionamento da dívida externa e os progressos feitos no sentido de o país obter o grau de investimento, que tornará a bolsa brasileira acessível a fundos internacionais que só podem aplicar em mercados com esse selo (leia detalhes no quadro ao lado). Também pesa a favor da bolsa brasileira a competitividade das produtoras nacionais de commodities, como as siderúrgicas e as mineradoras, que têm se beneficiado da disparada dos preços internacionais desses produtos. "Além de a produção e a exportação de commodities serem importantes para o desempenho da economia brasileira, a Bovespa está bastante concentrada nas empresas desse setor", diz Luiz Ribeiro, gestor de fundos offshore para a América Latina do HSBC. Apenas a Vale e a Petrobras respondem por um terço do valor de mercado da Bovespa e por cerca de 30% do volume de negócios.
Com base nessas perspectivas positivas, a previsão média dos analistas é de um Índice Bovespa ao redor dos 75 000 pontos em dezembro, o que representa valorização de 20% em relação ao fechamento de 11 de abril. Existe, porém, um risco: o de um aumento dos juros maior que o esperado. A maioria dos bancos e corretoras prevê que a alta da Selic até dezembro será de 1 a 2 pontos percentuais. "Estamos revisando nossa projeção de crescimento do PIB para este ano por causa dessa nova expectativa sobre os juros", diz Marcelo Salomon, economista-chefe do Unibanco. Uma economia mais fraca prejudica a bolsa, sem dúvida, mas boa parte dessa perspectiva mais pessimista já está nas contas dos analistas -- que, ainda assim, esperam que o Ibovespa se valorize. Haverá problemas se a alta dos juros for maior que 2% neste ano. "Os investidores não gostam de surpresas", diz Jacopo Valentino, do BNP. Entre os fatores que podem desmentir os analistas há ainda os efeitos de uma recessão americana e de uma eventual queda nos preços das commodities -- duas possibilidades tidas como pouco prováveis no curto prazo.

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