quarta-feira, 6 de maio de 2009

Estratégia para aumentar o lucro e diminuir o risco

Recebi um interessante e-mail de Lucas, um jovem leitor que perdeu uma parcela significativa do capital na primeira vez em que tentou investir em ações. Longe de desistir, ele acredita que chegou a hora de voltar para a bolsa de valores.

Lucas conta que, no início de 2008, vendeu um dos três terrenos que recebeu de herança do pai e, segundo ele, influenciado por um colega da faculdade de Administração de Empresas, colocou todo o dinheiro da venda em ações. Ele conta que ficava várias horas por dia operando em um Home Broker, comprando e vendendo ações ou opções no mesmo dia.

Depois de conseguir um bom desempenho no começo, ele acabou perdendo quase todo o dinheiro durante as grandes flutuações de outubro de 2008. Para tentar “salvar” o que restava, comprou um carro que valia menos de 10% do terreno. A dura lição serviu para que ele passasse a investigar os erros do passado. Percebeu que conhecia muito pouco sobre o mercado acionário. Resolveu estudar bastante e agora se sente mais preparado do que antes.

Recentemente Lucas recebeu uma boa proposta para a venda do segundo terreno da herança e pensa em voltar a comprar ações. Ele acredita que a crise econômica está chegando ao fim e que as ações ainda estão baratas. Mesmo reconhecendo que gostava da emoção do ritmo febril das compras e vendas diárias, Lucas diz que agora pretende mudar de estratégia. Formado e empregado em uma grande empresa, ele pensa em investir em cinco ou seis companhias e não mexer mais no dinheiro. “Esta estratégia está correta?”, questiona o leitor.

Respondendo a pergunta

Não existem garantias de que a crise esteja no final. O que parece que ficou claro é que a crise não terá as proporções previstas pelos mais alarmistas. Também não se pode afirmar que as ações estão “baratas”. O preço é resultado de inúmeros negócios diários e refletem as expectativas sobre os retornos das empresas no futuro.

Mesmo assim, Lucas deve voltar ao mercado. Mas precisa diversificar os investimentos. Hoje ele possui 100% dos investimentos aplicados no setor imobiliário. Esta concentração não é positiva.

Mas ao vender o terreno, ele não deveria comprar tudo em ações. O mais indicado é investir 50% na bolsa e 50% em títulos públicos ou fundos lastreados nestes títulos. Lucas também pode ampliar os ganhos se fizer um programa de compras mensais de ações e títulos públicos. Talvez ele até possa ganhar mais no longo prazo investindo somente em ações, mas em um momento de grande queda no mercado, é possível que ele volte a liquidar os investimentos em péssima hora.

Criando uma estratégia

No início de 2002 o mercado acionário estava em um período de desânimo. As cotações já tinham caído mais de 30% em relação ao pico de 2000. Naquela época foi lançado o Tesouro Direto, que dava a oportunidade de os investidores comprarem títulos públicos de forma direta através da internet.

Em reação à possibilidade de eleição do Presidente Lula, as cotações caíram ainda mais 35%. O Ibovespa chegou aos 8.370 pontos em 16 de outubro. Depois da eleição, ficou evidente que o medo era despropositado. A Bovespa, então, embarcou na mais impressionante alta da história do mercado de capitais brasileiro, que foi interrompida pela crise hipotecária americana em 2008.

Usando os dados deste conturbado período após a criação do Tesouro Direto, testei uma estratégia muito difundida no mercado de capitais: o balanceamento de carteira. Esta estratégia consiste em estabelecer percentuais relativamente fixos de ativos e, sempre que determinado ativo superar uma marca, recompor a proporção entre os ativos.

Para testar a estratégia, simulei a compra de R$ 50 mil em ações e da mesma quantidade em Letras Financeiras do Tesouro (LFT ), totalizando um investimento inicial de R$ 100 mil. No dia 10 de cada mês, foi aplicado mais R$ 1 mil no ativo que tivesse valor menor. Sempre que um ativo superava a marca de 55% da carteira total, a proporção excedente a 50% era vendida no dia seguinte. Dois dias depois, era comprado o mesmo valor no outro ativo. Assim, ao longo de todo o tempo, nunca um ativo representou mais do que 55% ou menos de 45% da carteira total por mais de um dia.

O investimento total no período foram os R$ 100 mil iniciais, mais 87 parcelas de R$ 1 mil, totalizando R$ 187 mil. Com a estratégia de balanceamento de carteira, o resultado final do investimento em 14 de abril de 2009 foi de R$ 514.916,06, com uma Taxa Interna de Retorno (TIR) de 1,98% ao mês. Sem dúvida, um excelente rendimento.

Porém, para dar uma noção da vantagem desta estratégia, é preciso comparar com uma aplicação apenas em ações ou apenas em títulos. O resultado é que com a mesma estratégia de investir R$100 mi iniciais (2 x R$ 50 mil) e mais 87 parcelas de R$ 1 mil em títulos, teríamos R$ 462.582,09 ao final do período – uma TIR de 1,83% mensais. Com o investimento somente em ações, o resultado seria de R$ 504.325,08, com TIR de 1,96% ao mês.

O maior retorno, portanto, foi no sistema misto. Mas a diferença não foi tão significativa em relação ao investimento em ações. Entretanto, é comparando os riscos das estratégias que percebemos a maior vantagem do balanceamento. O desvio padrão (risco) dos retornos da carteira de ações foi de quase o dobro (0,020) em relação ao desvio padrão do investimento misto (0,011). Assim, quando ajustamos risco e retorno, o investimento balanceado é bastante superior.

Para ter uma idéia prática deste risco, no dia 20/5/2008 a carteira de ações chegou a valer R$ 798.106,23 e, cinco meses depois (em 27/10/2008), valia apenas R$ 322.433,41 – uma queda de quase 60% em relação ao pico. São momentos em que os investidores não suportam as perdas e liquidam as ações na pior hora possível.

Na carteira balanceada, o valor máximo, de R$ 588.333,42, também foi atingido no dia 20/5/2008. Depois da queda, o valor mínimo atingido foi de R$ 408.452,06, em 24/10/2008. Uma significativa redução de 30%, porém muito menor que a da carteira exclusiva em ações.

A estratégia de balanceamento de carteira normalmente reduz o risco e aumenta o retorno. Como reduz as diferenças entre valores extremos (picos e vales), contribui para evitar que os investidores percam dinheiro ao liquidar os investimentos no pior momento.


Fonte: http://www.bb.com.br/portalbb/page251,116,2233,1,1,1,1.bb?codigoMenu=1092&codigoNoticia=16261 (acesso em 06/05/09 às 15:10h)

Autor: Jurandir Sell Macedo

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